quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O vão latino-americano



O ponto que mais me impressiona do desenho de Lina Bo Bardi para o Museu de Arte de São Paulo (MASP) é o seu vão. A imponência da caixa de concreto que se estende ao longo da Avenida Paulista, quase como se estivesse suspensa, faz com que se passe desapercebida aos olhos mais fugazes uma das mais belas vistas de São Paulo. É comovente a generosidade que a arquiteta ítalo-brasileira teve com o entorno previamente estabelecido pela geografia e pelas construções humanas de outros tempos ao não reivindicar a exclusividade do espetáculo para a sua obra.

No que concerne à política externa do Sr. Barack H. Obama o não-espaço de seus discursos é altamente revelador sobre a posição da América Latina para o atual governo dos Estados Unidos. O Sr. Obama e sua Secretária de Estado, a Sra. Hillary Clinton, andaram pelo mundo nesses primeiros seis meses sob a cadência sugerida pelo analista internacional, Sr. Jospeh Nye: ouviram e falaram. Necessariamente nesta ordem e necessariamente com esses verbos. Outrora os Estados Unidos não falavam, declaravam e também não ouviam, aturavam. Tantos foram os tapetes vermelhos estendidos, tantas taças foram sorvidas em cerimoniais, tão intensas foram as produções dos jornais estrangeiros sobre os discursos do Sr. Obama, que a vertigem de notícias deixou escapar aos olhos mais fugazes a falta de um discurso: para a América Latina. Muitos apontarão que o discurso do Sr. Obama quando da 5ª Reunião da Cúpula das Américas em Port of Spain, Trindad e Tobago, como o momento desse discurso, porém este foi um discurso inevitável de um encontro previamente estabelecido em coordenação com a Organização dos Estados Americanos (OEA). Muitos dos discursos chaves feitos pela atual administração da Casa Branca vêm ocorrendo em países estratégicos (Alemanha, Egito, Turquia, Rússia, China etc) e não em encontros plurilaterais.


Não poderia ser diferente, Oriente Médio e Ásia (vistos por muitos estrategistas como partes de uma mesma “pan-região”) serão o main stage da atuação da diplomacia estadunidense, como vêm sendo há décadas. Enquanto as tropas estadunidenses mudam do Iraque para o Afeganistão (sob os olhos iranianos elas simplesmente mudaram do flanco esquerdo para o direito), o Secretário do Tesouro Americano enfatiza a importância de relações comerciais mais equilibradas entre EUA e a China, a Índia é contemplada com uma parceria militar e nuclear (a despeito de continuar fora do regime de não-proliferação de armamentos nucleares), no Cairo fala-se de um novo diálogo entre o Islã e o Ocidente. Nada sobre o “extremo ocidente”, ou seja, a América Latina.


Na guerra de estatísticas a única batalha que a América Latina ganha da Ásia e do Oriente Médio é a de número de imigrantes em solo estadunidense. Com isso poucos são os incentivos para a Casa Branca subir a região na lista de importância. Além do mais, há um outro dado que explica essa “negligência relativa” para com a região: a aliança não-escrita. O conceito que o Sr. Bradford Burns desenvolveu para explicar a relação Brasil-Estados Unidos durante a gestão de José Maria da Silva Paranhos Júnior (vulgo, Barão do Rio Branco) e que, grosso modo, perdurou por muito tempo na história da nossa diplomacia republicana será posto à prova. Se o Brasil mostrar capaz de conter e dirimir os excessivos contenciosos no espaço latino-americano (com a contumaz ênfase na América do Sul) poderá requalificar a tese do Sr. Burns. Caso contrário, perderá a chance de exercitar uma “liderança construtiva”, ou qualquer outra expressão que a nossa chancelaria venha a cunhar.


Assim, pelos pilares invisíveis de uma aliança não-escrita e de um discurso não feito, ergue-se o eloqüente silêncio da política internacional da América Latina. Resta-nos saber se a visão que ele irá revelar será tão bela quanto o contraste da muralha de Jaraguá com os arranha-céus da paulicéia.


Luís Fernando Cardoso

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