Ao se referir aos "não-espaços" da política externa norte-americana, o artigo "O vão latino-americano" mostra como funciona, na prática, a agenda diplomática do governo Barack Obama. O idealismo retórico em política externa, como de resto em todos os domínios da administração, explora simbólica e sagazmente o poder de sedução da magnética biografia presidencial para demarcar novas fronteiras, especialmente nos terrenos do comportamento e da linguagem. Viu-se isso na Cúpula do G-20, em Londres, quando Obama saudou o presidente brasileiro diante das câmares como "that´s my man", "the most popular politician on earth". No episódio da "cúpula da cerveja", na última quinta-feira (30 de julho), em que Obama chamou um professor negro, um policial branco e o vice-presidente, Joe Biden, para tomar uma cerveja nos jardins da Casa Branca, encerrando um embaraçante episódio ocorrido na bucólica comunidade de Cambridge, Massachusetts, viu-se como o presidente transita habilmente do formal para o informal para esquivar-se dos escorregões verbais e reforçar sua marca conciliadora.
O lado "homem comum" da figura presidencial já havia sido muito explorado politicamente por Bill Clinton em seus dois mandatos, mas Obama parece ficar ainda mais à vontade em quebrar protocolos e contornar crises com seu jeitão de moço boa pinta e líder de time de basketball. Enquanto isso seu time administrativo, político e econômico está literalmente imerso em como desatar o cipoal de problemas domésticos herdado da era Bush sem exigir ainda mais sacrifícios do povo americano, o que se revela tarefa tão impossível quanto fazer uma reforma política no Brasil sem requerer que os membros do Congresso Nacional abram mão de parcelas de poder e privilégio.
Em política externa não tem sido diferente. No que toca ao funcionamento das instituições, há duas diplomacias paralelas em Washington: a diplomacia prática do Departamento de Estado, pragmática e focada na agenda de segurança, nas mãos da operadora política Hillary Clinton, e a da Casa Branca, uma diplomacia presidencial mais idealista, global e simbólica. O canal paralelo da Casa Branca tem sido ampliado pelo presidente Obama para fortalecer externamente o campo de ação diplomático dos Estados Unidos. Uma terceira diplomacia, a da Congresso, parece estar subestimada nesta administração porque a maioria parlamentar democrata nas duas Casas garante ao presidente coesão política suficiente para tornar-se, de fato, o maior ator diplomático do país.
Em relação ao conteúdo, há uma nova agenda focada no resgate do multilateralismo e da legitimidade, com mudanças de prioridade, discurso, ênfase e tom. Mas as relações bilaterais dos Estados Unidos com seus tradicionais aliados-ponte continuam sendo o eixo sobre o qual se baseia o movimento de ajuste estratégico da política externa, cuja principal meta a ser atingida é resgatar os canais de ação bloqueados pelo governo Bush. O que se tem percebido nos primeiros seis meses da administração Obama foi que a diplomacia americana tem sido excessivamente pró-ativa para reafirmar essas parcerias vitais, soldando as relações com a Europa, reiniciando a parceria com a Rússia, criando um entendimento de alto nível com a China, prestigiando os velhos acordos com os Estados moderados do Oriente Médio e Ásia.
Conforme seu texto "O vão latino-americano" procura coerentemente argumentar, a metáfora do espaço vazio no discurso da política externa se encaixa muito bem ao comportamento dos Estados Unidos em relação ao Hemisfério Ocidental. As lacunas latino-americana e africana da diplomacia obamista surpreendem os analistas mais idealistas, pois pensava-se que seriam exatamente nesses dois continentes relativamente periféricos que o 44º presidente dos Estados Unidos apresentaria as principais inovações. Esse espaço de "não-discurso", porém, é compreensível, dadas as prioridades externas americanas acima referidas e o pouco tempo disponível até agora para o esboço de uma agenda consistente. Mas não há dúvida de que a proximidade geográfica e os interesses econômicos e imigratórios impõem que os vetores principais da diplomacia regional continuem sendo México e o Caribe. Mas as demonstrações de contemporização com a ditadura cubana e com Chávez, o auxílio econômico ao México, a postura surpreendente de Obama a favor de Zelaya em Honduras, a reativação da 4a Frota e a busca do reforço da presença militar na Colômbia mostram que a agenda norte-americana para a região não tem sido consistente, mas fragmentada.
Longe de representar um cenário de risco ou ameaça para os interesses norte-americanos e distante das grandes confrontações geopolíticas e militares globais, a América do Sul continua um espaço relativamente periférico nas relações internacionais globais, conforme mostram Bradford Burns, Amado Cervo, Celso Lafer, Rubens Barbosa, Ricúpero e Soares de Lima. Na linha dos nossos melhores analistas, o ensaio "O vão latino-americani" indentifica nessa circunstância da inserção regional do Brasil uma vantagem ímpar para a promoção de nossa liderança natural no continente, favorecida pelo clima de cordialidade entre o Brasil e os seus dez vizinhos, pela nossa robustez econômica no contexto da globalização e pela capacidade moderadora no encaminhamento de ameaças à paz ou à democracia na sub-região.
Em suma, o que se depreende da análise é que, ao contrário do Oriente Médio, ainda não temos uma agenda externa esboçada e definida pelo presidente Obama para a América Latina como um todo, mas elementos esparços e isolados, fragmentados e regionalizados. Esse nexo de coerência, ao que parece até aqui, poderá ser construído pela via multilateral, nos próximos meses, tendo o Brasil como colaborador de primeira ordem. Na prática, a negligência nos favorece.
Enrique Carlos Natalino
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