Em seu artigo "Orquestras Sinfônicas: uma metáfora revisitada" [1], Carlos Osmar Bertero navega pelo universo da música instrumental para mostrar como funcionam e se estruturam os conjuntos sinfônicos. Seu intento é discutir o mito de que as organizações modernas deveriam observar o funcionamento harmonioso e colaborativo das formações orquestrais para utilizá-las como modelos em seus processos de reestruturação e mudança. Na realidade, a orquestra está longe de representar um ambiente avesso ao conflito e à hierarquia. Ela se formou como um agrupamento instrumental utilizado para a execução de música erudita, evoluindo das formações camerísticas dos períodos Barroco e Clássico para os grandes conjuntos orquestrais do Romantismo e do pós-Romantismo, compostos esses por dezenas e até centenas de músicos. A música deixou as igrejas e os salões palacianos para ser apresentada em teatros e salas de concerto. Ao se tornarem maiores, mais complexas, dotadas de maior volume sonoro e melhor nível técnico, as orquestras se submeteram a uma crescente profissionalização.
A ampliação do acesso à música instrumental foi acompanhada pela afirmação da figura centralizadora e absolutista do regente. Elias Cenetti o descreve como a corporificarão do poder, “o ditador na esfera estética”, um ser arrogante e exibicionista responsável por decisões de interpretação e poder de vida e de morte sobre a carreira dos músicos. A era dos supermaestros, contudo, encontra-se em franco declínio com a melhoria considerável no nível de formação dos músicos instrumentistas em relação a eles, o crescente desinteresse das novas gerações com a sorte das orquestras, o envelhecimento do público das salas de concerto, a queda nas vendas de álbuns e ausência de políticas de formação de público.
A despeito das mudanças no ambiente, muitas orquestras resistem com suas estruturas rígidas e inflexíveis. O modelo norte-americano, por exemplo, ainda as concebem como um misto de oligarquia administrativa e monarquia absolutista, constituída por um conselho curador, um maestro onipotente e músicos submissos. A Filarmônica de Nova York, atualmente sob a batuta de Lorin Maazel, não se afasta desse arranjo. A justificativa é que a música clássica se dirige a um público muito restrito e elitizado, pouco mais de 50 mil pessoas numa cidade de mais de dez milhões de habitantes. A Filarmônica de Berlim, considerada a melhor do mundo, permaneceu durante décadas sob a tirania de Herbert Von Karajan. Inquirido sobre por que razão preferia reger a Filarmônica de Berlim à de Viena, Karajan uma vez respondeu: "Se digo aos berlinenses que dêem um passo à frente, eles dão. Se digo aos vienenses para darem um passo à frente, eles dão. Mas aí perguntam por quê." O formato europeu contemporâneo, contudo, tem elementos mais participativos e corporativos, com um equilíbrio de poder entre o conselho, regente e músicos, de que é exemplo a maior autonomia que o maestro Kurt Masur concede aos músicos quando rege.
A reestruturação da mais importante instituição musical erudita brasileira, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), seguiu o modelo de acúmulo de super-poderes, confiados a um competente músico e gestor com carreira inteiramente cultivada no exterior que acumulou as funções de regente-titular e diretor-artístico, o maestro John Neschling. Após dez anos à frente da instituição, Neschling elevou a OSESP a um patamar de excelência jamais visto no Brasil, imitado por orquestras do Rio, Minas e outros estados. Mas o regente-titular de gênio irascível acumulou desgastes crescentes com músicos, conselheiros e com o governo paulista, criando um ambiente ruim que comprometia o futuro da instituição. O impasse só foi resolvido com a dolorosa decisão do conselho curador, presidido por Fernando Henrique Cardoso, de demiti-lo, mesmo sob lamentos e protestos ruidosos do público da Sala São Paulo. O exemplo reforça a tese de que a orquestra não é uma organização perfeita, pois lida diariamente com a administração de conflitos, a compatibilização de egos e a gerência de talentos com diferentes habilidades através de processos de tomada de decisões nem sempre abertos e democráticos.
A dramatização de situações-problema como as vivenciados pelas orquestras, comuns dentro das organizações, é tema do artigo de Georg Schreyögg, "Teatro e Mudança Organizacional" [2]. O teatro organizacional não visa ao entretenimento, mas à resolução de problemas nas organizações. Atua como um poderoso catalisador de mudanças que libera conflitos ocultos, descongela situações bloqueadas, revela padrões de comportamento inconscientes, expõe verdades dolorosas e ajuda a quebrar barreiras de comunicação entre as pessoas. Seu objetivo é ajudar no processo de mudança de atitudes através da construção de uma experiência de ruptura com a realidade, duplicando-a, com a montagem de “uma plataforma que permite a observação da visão da realidade bem conhecida, tomada como certa, de um ponto de vista distante”. A exploração da encenação da realidade organizacional “produz significantes, usa atores, objetos pertencentes ao ambiente e outros signos para criar um sentido que deve ser percebido e interpretado pela platéia”.
Para recorrer novamente à metáfora musical, no filme Ensaio de Orquestra, do consagrado diretor Federico Fellini, há uma interessante adaptação para o cinema de um teatro catalisador de percepções de realidades organizacionais. A trama absurda de Fellini enreda instrumentistas de uma orquestra numa rebelião anárquica contra a batuta ditatorial de um maestro insensível e frustrado, tendo como cenário uma capela mortuária de um monastério centenário. Segundo a crítica de cinema Helena Sut, em resenha publicada em 2005 no Recanto das Letras do Portal UOL, Fellini quis mostrar a metáfora do confronto entre o ensaio que está por vir com as ruínas dos tempos áureos. Os personagens são músicos, mas podem ser também os tipos presentes em todas as organizações contemporâneas.
Seguindo a idéia de Schreyögg de que a irritação teatral produz desordem e instabilidade, não há como deixar de notar em Ensaio de Orquestra construções teatrais que estimulam a reflexão dos problemas vivenciados nesse meio, salientados na análise arguta de Helena Sut, como o duelo entre a rigidez do maestro e as determinações autonomistas dos músicos; as contrariações, descasos e ironias dos músicos que almejam o estrelato contra o regente, que primeiro confessa se sentir um fantasma, um sargento sem autoridade, e depois se transforma, readquirindo toda a aura de soberba ao afirmar que ao reger, sente-se o próprio dono do mundo. Em meio a discursos sindicais, insultos, ressentimentos, estrondos, indisciplina e o prenúncio de verdadeira revolução no ar, alguns músicos decidem colocar um enorme metrônomo no lugar do regente.
A alegoria cinematográfica felliniana e o texto de Georg Schreyögg se harmonizam perfeitamente ao vislumbrar as conseqüências desestabilizadoras e imprevisíveis da tomada de consciência forçada por parte dos membros de organizações que abrigam visões de mundo complexas e conflitantes, como as orquestras sinfônicas analisadas por Carlos Osmar Bertero. As reflexões podem catalisar e até detonar mudanças, mas não conseguem direcioná-las nem definir seus objetivos, pois são complementares a um gerenciamento estratégico das mudanças.
Enrique Carlos Natalino
Referências:
1. BERTERO, Carlos Osmar. Orquestras Sinfônicas: uma metáfora revisitada. RAE - Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 41, n.3, p. 84-88, Jul./Set. 2001.
2. SCHREYÖGG, Georg. Teatro e Mudança Organizacional. RAE – Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 42, n.4, p.29-35, Out./Nov./Dez. 2002.
3. SUT, Helena. Ensaio de Orquestra - Filme de Fellini. Disponível em: http://recantodasletras.uol.com.br/resenhas/26948
3. SUT, Helena. Ensaio de Orquestra - Filme de Fellini. Disponível em: http://recantodasletras.uol.com.br/resenhas/26948

Um comentário:
Espera,
Muito interessante o texto!
Corro a procurar o Fellini.
Abraço,
DP2.
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