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segunda-feira, 17 de agosto de 2009
A comunhão do carisma com a burocracia
No texto “O diabo e Madre Tereza”, extraído da obra “Amor, pobreza e guerra: ensaios e viagens pela cultura e o mundo de hoje”, de Cristopher Hitchens, percebe-se uma clara tentativa de demolição do mito Madre Tereza de Calcutá, missionária macedônia que dedicou a vida a assistir aos miseráveis e que se tornou uma das figuras públicas mais populares do século XX. O ponto central que interessa ao estudo da Teoria das Organizações é o visível contraste entre a metódica e hierarquizada Igreja Católica Apostólica Romana e a Ordem das Missionárias de Calcutá, organização centrada no carisma de sua fundadora e avessa a qualquer espécie de arranjo que se aproxime do modelo burocrático.
Detentora do poder temporal sobre seus fiéis, a Igreja Católica exerce um tipo de dominação que Max Weber denomina carismática. Entretanto, enquanto organização complexa e multifacetada, assentada territorialmente num pequeno Estado soberano, com presença em todos os continentes, detentora de largo cabedal de patrimônio e imenso quadro de funcionários, a Igreja de Roma estrutura-se também segundo o modelo weberiano racional-legal de dominação como uma organização altamente burocratizada. Regida pelo Código de Direito Canônico, é composta por uma hierarquia ascendente que vai desde o simples diácono ao Papa, por vários movimentos apostólicos - que comportam notadamente as ordens religiosas - os institutos seculares e uma ampla diversidade de organizações e movimentos de leigos.
O modelo burocrático é suscetível de aplicação em todas as situações e contextos. É o governo das regras baseado no saber técnico e legitimado pelo conhecimento especializado, impondo-se com a máxima eficiência na administração de assuntos quotidianos através de um sistema de normas abstratas e impessoais e uma organização de quadros técnicos submetidos ao poder hierárquico e disciplinar, gerando estabilidade, certeza e confiança para o controle dos seres humanos. O crescimento da Igreja Católica e a necessidade de sua reprodução no tempo exigiram maior divisão de trabalho, maior controle e maior responsabilização de seus funcionários, com arranjos administrativos complexos para assegurar o alcance efetivo de seu objetivo precípuo: a conversão aos ensinamentos e de Jesus Cristo, administrando os sacramentos e pregando urbi et orbios Evangelhos.
A análise de trechos do texto permite salientar alguns traços burocráticos da Igreja Católica - como hierarquia, padronização de condutas, formalização de procedimentos, rigor no trato com assuntos administrativos - e cotejá-los com o completo diletantismo presente no quotidiano da organização de Madre Tereza. O fato de o Papa João Paulo II ter agilizado os processos de beatificação e canonização simplesmente abolindo a figura do advogado do diabo - funcionário que cuidava de levantar evidências contra os candidatos a santos - mostra como a Igreja se estrutura como uma organização burocratizada com divisão de tarefas, órgãos administrativos com competências específicas e funcionários especializados.
Os padres comportam-se como funcionários que obedecem a ordens superiores e seguem padrões pré-determinados de conduta, como “bonecos de ventríloquo a longa distância do Vaticano”. Essa capacidade da Igreja de modelar o pensamento e comportamento do clero no espírito da impessoalidade formalista fica evidente na própria ritualística utilizada na colheita do depoimento do autor do texto, tendo como modelo um questionário de perguntas e como inspiração as bancas de avaliação de teses acadêmicas. Ao contrário da Igreja Católica, ciosa de suas finanças e detentora até mesmo de uma instituição bancária, a Ordem das Missionárias de Calcutá dispensa auditorias, prestações de contas, profissionalização e outras condutas burocráticas em razão da crença profundamente arraigada de que lhe basta o magnetismo carismático de Madre Tereza para alcançar seus objetivos.
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