Quais os objetivos externos do governo Hugo Chávez? O primeiro ponto da agenda internacional de Chávez, desde que assumiu o poder, foi aproximar-se dos demais países membros da OPEP e buscar maior projeção para a Venezuela dentro do bloco. Natural para um país exportador de commodities que almeja ampliar o seu poder de barganha comercial. Em segundo lugar, a aproximação estratégica com o regime socialista de Cuba, que serve inegavelmente de modelo distante para a revolução bolivariana, fornecendo recursos humanos, conhecimento e experiência para os programas sociais do governo.
Definidas estas duas vertentes básicas, o passo seguinte foi buscar uma parceria com o Brasil e a Argentina e, mais recentemente, com a Rússia e Espanha, na tentativa de fazer contraponto aos Estados Unidos, sem prejuízo do comércio bilateral de petróleo. Lembrar-se-á que a Espanha, Rússia e Brasil foram os países que mais venderam armas para o programa de reequipamento das forças militares venezuelanas.
A aproximação com a América do Sul (leia-se com o Brasil) é o eixo vital do projeto bolivariano da diplomacia venezuelana, que pretende buscar a integração física, econômica, social, cultural, política e militar do continente. No final do governo FHC, o Brasil chegou a suprir a Venezuela com petróleo refinado e gasolina, no episódio da greve geral da PDVSA que paralisou o país em 2002. A aproximação com a Venezuela, que Lula reclama ser iniciativa sua, na verdade foi iniciada pelo chanceler Lampreia à frente do Itamaraty, a partir de 1995, que se consubstanciou na visita presidencial de Rafael Caldera a Brasília naquele ano. Chávez e FHC também mantiveram relações boas e produtivas, ao que Lula deu continuidade com o fortalecimento da parceria.
A agenda de um país emergente do quilate do Brasil ou da Venezuela exige uma diplomacia regional pró-ativa e vigorosa, que contemple a integração estratégica das infra-estruturas. Isso já vem sendo feito, a contento, desde FHC. Mas Chávez tem ambições de gigante e vem costurando aquilo que denomina “força contra-hegemônica” ou “contra-imperial” no continente sul-americano, que começou com os ataques à ALCA, ao Plano Colômbia de Pastrana-Uribe e ao golpe de Estado de 2002. Em resposta à ALCA, Chávez propôs a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas). Em outra vertente, Lula encampou o projeto do governo Itamar Franco da ALCSA (Área de Livre Comércio Sul-Americana), transformando-a naquilo que chamaria-se CASA (Comunidade Sul-Americana de Nações), rebatizada de UNASUL (União Sul-Americana).
Não têm faltado iniciativas integracionistas chavistas no continente. Chávez fundou Tv Sur, responsável por transmitir programação "contra-hegemônica" para os vizinhos. Outra iniciativa sua, o Banco do Sul, está emperrada e ameaça esvaziar outras instituições, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Ainda não existe consenso sobre a necessidade de outra instituição financeira regional de capital público. A pièce de resistence de Chávez é uma espécie de Organização do Tratado do Atlântico Sul, ainda sem formato. Mas como integrar as Forças Armadas e as políticas de defesa da América do Sul sem, antes, que os países se entendam em temas básicos como soberania e não-ingerência em assuntos internos, como ficou claro na crise Colômbia-Equador e, hodiernamente, no episódio de Honduras?
A obra neobolivariana tem feito da Venezuela uma disneylândia das esquerdas, todas órfãs depois que o socialismo e a URSS viraram pó, o muro de Belim ruiu, a China se tornou ícone do capitalismo e saiu de cena o coma-andante de Cuba.
Enrique Carlos Natalino
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