quinta-feira, 9 de julho de 2009

Brasil logístico


A atuação de empresas brasileiras no exterior tem revelado o crescente grau de internacionalização da economia, possível graças à edificação de um quadro político-institucional maduro e do aggiornamento do projeto de desenvolvimento. A atuação do setor privado brasileiro fora das fronteiras nacionais começou a se tornar uma realidade há mais de trinta anos, com os contratos firmados entre países da África, Oriente Médio e América Central com grandes empreiteiras brasileiras.


A abertura econômica dos anos 90 produziu indubitável melhoria da competitividade sistêmica do sistema produtivo nacional, ampliando os horizontes de atuação dos setores com os quais o país já despontava internacionalmente. A experiência adquirida desde então tem sido uma credencial valiosa que permitiu a rápida percepção por parte dos empresários do potencial inexplorado dos mercados dos países vizinhos, ignorados até muito pouco tempo. As empresas que se internacionalizaram passaram a diversificar suas estratégias de investimento, produção e expansão, conjugando-se com as prioridades da política externa do Brasil no subcontinente sul-americano. Camargo Correia, Odebrecht e Mendes Júnior (construção civil), Vale do Rio Doce (mineração), Petrobrás (petróleo e gás) e outras empresas nacionais estão presentes em praticamente todos os países sul-americanos.


A América do Sul é o foco prioritário de expansão dos interesses comerciais e empresariais brasileiros no plano global. É a plataforma de inserção estratégica de um país continental que procura obstinadamente adensar os laços econômicos e políticos com o mundo para ampliar os horizontes de seus interesses nacionais. A criação do Mercosul (1991) foi um grande marco nessa direção, integrando os principais centros de desenvolvimento do Cone Sul, multiplicando o comércio intra-regional e abrindo às empresas brasileiras oportunidades de ganho de escala com o acesso aos mercados argentino, uruguaio e paraguaio.


A circunstância geográfica sul-americana ganhou maior substância econômica, política e estratégica na política externa brasileira com a escolha da expansão da infra-estrutura como opção central de ação, acertada na I Cúpula de Chefes de Estado da América do Sul, em Brasília (2000). O Plano de Ação para a Integração da Infra-estrutura Regional da América do Sul (IIRSA), um dos frutos daquele encontro, é de enorme interesse para o Brasil. Permitirá dinamizar as regiões oeste e norte do país, grandes vazios populacionais e economicamente mais atrasadas, beneficiando as empresas dos setores de agroindústria e mineração. Padronizará normas técnicas e sistemas regulatórios, facilitando o planejamento das empresas. Empresas brasileiras poderão participar da execução de obras importantes e custosas, como ocorreu na recente construção de uma rodovia de acesso ao estado do Acre no território do Peru e de uma grande ponte sobre o rio Orinoco, na Venezuela.


Essa ambiciosa interligação física dos sistemas rodoviários, ferroviários, fluviais, aéreos, energéticos e de comunicações permitirá harmonizar o desenvolvimento econômico regional, melhorar a competitividade internacional das empresas brasileiras, com o acesso direto aos mercados da Ásia via Oceano Pacífico e aperfeiçoar os mecanismos de interação entre o que Amado Luiz Cervo denominou “Estado logístico” e o setor privado. A questão da integração energética é um desafio à parte, razão pela qual o governo se empenha em manter um ambiente de estabilidade e confiança nas relações entre o Brasil e seus vizinhos, especialmente a Bolívia, exportadora de gás natural para o complexo urbano-industrial brasileiro.


O Estado boliviano criou uma controvérsia recente com o Brasil ao nacionalizar os recursos minerais, obrigando a Petrobrás a vender suas refinarias no país. Apesar da instabilidade política, ao Brasil interessa manter o abastecimento de gás natural via gasoduto Bolívia-Brasil até que a auto-suficiência seja alcançada nos próximos anos. Ao mesmo tempo, as empresas brasileiras que têm uma carteira de bilhões de dólares em investimentos na Venezuela dependem de um quadro econômico, político e jurídico estável para o sucesso de seus negócios.


O ambiente político e econômico da América do Sul, como se percebe, há muito deixou de ser uma realidade distante para o Brasil e suas empresas, constituindo hodiernamente um dos focos centrais das preocupações de planejamento e ação do Estado brasileiro e do setor privado mais adiantado.

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