Houve recentemente a primeira Cúpula dos BRICs, em Ekaterimburgo, na Rússia. O embaixador e Secretário-Geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, em sua obra “Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes”, ressalta que num ranking dos países com os maiores territórios, populações, mercados internos, recursos naturais, potenciais agrícolas e parques industriais, o Brasil sempre figura entre os primeiros colocados. As formidáveis potencialidades do Brasil, segundo o diplomata, conferem-lhe as credenciais necessárias para o exercício de um papel mais assertivo nas relações internacionais, não somente nos âmbitos regional e hemisférico, mas também no xadrez global.
Enquanto a América do Sul permanece como a área prioritária da política externa do Brasil, que se engaja num ambicioso processo de integração a médio e longo-prazos, e a América do Norte e a Europa continuam os tradicionais parceiros, foram identificados novos eixos de expansão dos interesses econômicos, políticos e culturais brasileiros na vertente Sul-Sul. Esse direcionamento vem sendo esboçado desde o governo Kubitschek e a Política Externa Independente (PEI) dos presidentes Quadros e Goulart, mas somente nos anos 70 é que ganhou densidade e contornos mais definidos, a partir da aproximação com a África atlântica, com os países árabes, com as nações socialistas e com a China comunista.
Considerando a ênfase dada pelo Presidente Luís Inácio Lula da Silva à abertura de novas frentes de concertação diplomática multilateral e à diversificação de parcerias estratégicas com países em desenvolvimento, houve um fortalecimento das relações bilaterais com Rússia, China, Índia, África do Sul e um aumento considerável das trocas comerciais com cada um desses países. Rússia e Brasil entendem-se bem em questões políticas e de segurança nos organismos internacionais, inclusive no que concerne à ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. China e Brasil têm um valioso programa de cooperação tecnológica na área espacial e constituem a ponte-de-lança do G-20 na Organização Mundial do Comércio (OMC). Brasil e Índia atuam conjuntamente na Rodada de Doha e apóiam-se mutuamente para ingressar no clube de elite da ONU. África do Sul e Brasil convergem em vários temas como segurança internacional, agricultura, ciência e tecnologia e combate á pobreza.
O empenho da chancelaria brasileira se traduziu em visitas presidenciais cada vez mais freqüentes a esses países, missões ministeriais e empresariais de impacto, assinatura de acordos de cooperação em várias áreas e a criação de novos canais de diálogo e atuação diplomática conjunta. O fortalecimento do papel central da ONU e de seu Conselho de Segurança, dando-lhe maior representatividade com a inclusão de representantes influentes dos países em desenvolvimento é um desejo que une Índia, Brasil, Japão e Alemanha no chamado G-4, criado para formalizar as candidaturas dessas quatro nações a um assento permanente ao lado de Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China.
Índia, Brasil e África do Sul, como as grandes democracias multiétnicas e multiculturais da Ásia, América Latina e África com desafios e interesses semelhantes, resolveram criar em 2003 o IBAS, um fórum trilateral para a busca de soluções de consenso nas instâncias decisórias multilaterais. Vem se discutindo a possibilidade de um acordo de livre-comércio entre a América do Sul, a África Austral e o subcontinente indiano para encurtar as distâncias entre povos e entre continentes, a melhor resposta a uma ordem internacional desigual e incapaz de resolver os problemas de desenvolvimento e segurança coletiva.
O esforço de aprofundamento das relações Sul-Sul não se resume aos quatro grandes Estados citados. O Brasil tem sabido adaptar-se ao deslocamento do eixo dinâmico da economia mundial para a Ásia e vem universalizando cada vez mais sua política externa para somar à condição de global trader, alcançada desde os anos 70, a de global player – o que requer assumir grandes ônus e responsabilidades. Sua diplomacia extremamente profissionalizada tem sabido identificar e coordenar interesses e oportunidades globais, de que é um ótimo exemplo a ênfase dada às parcerias no setor de tecnologia de produção dos biocombustíveis.
Ao pleitear uma globalização mais justa, simétrica e solidária, o fortalecimento da democracia e dos direitos humanos, a defesa do meio ambiente e da diversidade étnica e cultural, o aperfeiçoamento dos mecanismos de regulação e controle dos fluxos financeiros internacionais, a reforma das organizações multilaterais, ações coordenadas de combate à pobreza, à miséria e às pandemias e a aproximação entre regiões e povos geograficamente distantes, o Brasil mostra-se preparado a assumir os grandes desafios para competir em condições de igualdade na era dos gigantes.
Enrique Carlos Natalino
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