terça-feira, 9 de junho de 2009

A Trajetória de um Bandeirante Moderno




“Tudo o que de belo existe sobre a terra,
foi feito pelos imaginativos e pelos sonhadores”.
Chateaubriand

Após experiências secretas, apócrifas, duvidosas e testemunhadas por meia dúzia de expectadores, realizadas no ano de 1903 nas colinas de Kitty Hawk, Carolina do Norte (EUA), os irmãos Wright afirmam terem inventado o avião. Conseguiram arremessar o aparelho a uma distância tímida de vinte metros com ajuda de uma catapulta.

Santos Dumont, ao contrário, sem qualquer segredo, nem diante de testemunhas hipotéticas e complacentes, mas à plena luz meridiana e perante uma multidão, realizou um soberbo vôo de sessenta metros, a três metros de distância do solo, deixando repórteres sem palavras ou interjeições que pudessem traduzir o assombro dos europeus que assistiram o histórico primeiro vôo do 14 Bis, em 13 de setembro de 1906, em Bagatelle, Paris.

A capital do mundo, luzeiro da civilização, metrópole de graça e elegância incomparáveis, urbe eleita que festejou o gênio de Victor Hugo, Balzac, Voltaire e Chateaubriand, síntese da própria grandeza do novo século das luzes, da ciência, do liberalismo e da modernidade, curvou-se aos pés do homem que decifrou a esfinge. O filho das montanhas de Minas rasgava os céus da França em todas as direções. Sobrevoava campos, aldeias, estradas, bosques, castelos, lagos e a coruscante Paris, com suas amplas avenidas que se abrem em leque ao redor do Arco do Triunfo.

O bandeirante moderno conquistava ares nunca antes navegados. Adquiriu talento com o manejo dos balões e seu primeiro feito extraordinário foi lhes dar plena dirigibilidade. Em 1901, contornou a torre Eiffel, a estrutura metálica mais alta do planeta, recebendo o prêmio Deutsch, dinheiro que distribuiu entre seus mecânicos e os pobres de Paris. Parecia um pássaro irrequieto, atarantado, à procura de um norte, de uma direção, de um caminho largo cheio de luz, que o levasse a uma nova e reverberante alvorada. Tinha uma flama interior que o abrasava, algo que o impelia a procurar obter algum resultado nunca visto, surpreendente, fantástico. Por essa razão, a Aeronáutica personificou Santos Dumont e Santos Dumont personificou a Aeronáutica.

Miguel Seabra Fagundes ilustra isso ao dizer que dele tinha “a impressão de que (...) era o maior homem da Terra e tinha conseguido um milagre como o dos santos”. Talvez por isso sua figura tenha sido evocada como símbolo da capacidade brasileira para vencer espaço e tempo, porventura os dois maiores inimigos do país na sua busca de prestígio, entre as nações, como civilização moderna. Aclamado herói do povo brasileiro, sua fama foi e é tão gigantesca que ele foi caricaturado, biografado, musicado, desenhado, pintado, esculpido, endeusado, anedotizado e mitificado. Santos Dumont, de fato, foi o primeiro brasileiro a dar uma fama internacional ao seu país, sendo adotado como modelo de progresso pela elite republicana.

Graças ao seu progenitor, que o libertou das odiosas preocupações financeiras, o futuro de Alberto não lhe parecia um enigma indecifrável ou um árido terreno de areias movediças. Em Paris, longe de ser um desses excêntricos “sportsman” com fama de milionários, algo maníacos e “blasés”, sequiosos de encontrarem novas emoções para os seus nervos gastos, capazes das maiores tolices em nome de fama e prestígio, ele buscava, tal qual um Colombo solitário, através de balões, dirigíveis e aviões, dar asas ao homem, conquistar os ares e ampliar seu conceito de liberdade.

Dezenas foram os que se ofereceram em holocausto a este sonho de dominar o espaço e de transformá-lo, para o homem, ser da terra preso a horizontes estreitos, em estradas livres, infinitas, o que equivalia a ampliar o universo, contemplar mais de perto o infinito, a face incomensurável de Deus, engrandecer a alma e modificar a dimensão do tempo.

Materializou o sonho de Leonardo da Vinci e criou a auto-suficiência dos aparelhos mais pesados que o ar pela utilização do motor a petróleo e das aletas laterais; estabeleceu a técnica do levantamento de vôo, ainda hoje adotada, através do arranque contra o vento; formulou os pontos de vista da Aeronáutica em relação à segurança das Américas e do mundo, nos congressos internacionais de Washington e Santiago; desvendou os rumos da navegação aérea a fim de torná-la o elemento ideal de transporte regular de pessoas e capaz de exercer influência na economia dos povos e na atitude política das nações.

Franzino, de estatura baixa, vida solitária, nervoso, emotivo e hipersensível, ele soube dominar-se através da disciplina. Em vez de soltar bazófias, de alardear uma coragem tartarinesca e um quixotismo incompatível com a condição humana, o brasileiro não sentia vergonha de revelar os seus sentimentos mais recônditos. Sua maior grandeza foi mostrar que ainda que os fados teimassem em ser inclementes, ele levantaria dos tombos e continuava. Um homem que vence a si próprio, conforme a frase de São Paulo, é mais forte do que aquele que toma cem cidades.

Desapegado de qualquer amor ao dinheiro e à fama, Santos Dumont reverteu ao domínio público as patentes de todos os seus aeroplanos. Coerente até o fim com seus princípios, não aceitou que a aviação se desvirtuasse de seu ideal pacifista. Morreu em 1932, aos 59 anos, mas deixou exemplos imorredouros de generosidade e amor à ciência.

Certa feita, uma dama da alta sociedade francesa perguntou a Santos Dumont se ele teria recursos para passar com o seu aeroplano por baixo do Arco do Triunfo. O inventor, sem qualquer hesitação, mostrando completa simplicidade e total modéstia, deu esta resposta: “- Certamente. Mas não me julgo merecedor de tamanha honra, nem capaz de tamanha falta de respeito”.

Alberto Santos Dumont pertence à família dos grandes inspirados, daqueles que já lograram alcançar, na história do pensamento humano, um lugar só comparável ao dos maiores. A sua glória não é apenas do Brasil, mas um patrimônio universal. Homem de inteligência brilhante, vigoroso talento criador e agilidade mental incomparável, acordou um Brasil ainda sonolento para as possibilidades do progresso. O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre observa com argúcia que Santos Dumont metamorfoseou-se, aos olhos de seus patrícios, no símbolo transbordante de um Brasil capaz de soerguer-se por conta própria da preguiça real em que vivia para, literalmente, alçar o vôo.

Enrique Carlos Natalino

Nenhum comentário: