O cenário dos anos JK está inserido entre duas eras difíceis da história do país. Situado entre o Estado Novo e o golpe militar de 1964, o governo do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira foi um regime dinâmico e democrático, de mágicas utopias, intenso florescimento cultural, de liberdade imaginativa e criador de uma nova identidade nacional. Numa nação fragilizada por golpes e contragolpes, suicídio, renúncia e impedimento de seus chefes políticos, mostrou ser um verdadeiro regime de “exceção” na história republicana do Brasil.
Em uma sociedade cada vez mais madura, num longo processo de revitalização das instituições democráticas ainda em curso, a imagem de Juscelino Kubitschek na presidência é inspiradora. Se vivo estivesse, celebraria em 12 de setembro de 2002 um século de primaveras. O número 100 não significa, em teoria, nada. Na prática, porém, 100 é um algarismo que representa um dígito a mais, de modo que será preciso esperar 900 anos para ver algo parecido.
O centenário de JK impressiona por isso. Ao parar para admirar o passado e aguardar o futuro, a humanidade vê que tem muito a realizar no presente para que sua vida esteja de acordo com o que ela imagina e deseja. O centenário é um convite à reflexão e novos objetivos. O apreço do estadista Juscelino Kubistchek pela ousadia e a utopia produziu efeitos inesquecíveis ao país, marcando-o com o signo do recomeço. Ele literalmente conseguiu sacudir o povo brasileiro no seu interior, dando-lhe uma nova dimensão. E fez uma enorme proeza: substituiu o vício da dor, da derrota e do fracasso, pela alegria do sonho e do prazer. Soube ser agradável e otimista, muito honesto e direito com suas obrigações de homem público. Mas fez mais, muito mais. Juntou a confiança no amanhã com a felicidade de viver o presente.
Chamando a todos os brasileiros para escreverem sua própria epopéia, construindo obras magníficas como Brasília e virando as costas para a derrota, JK deu uma lufada no ar. Se as figuras dos grandes estadistas como Péricles, Alexandre da Macedônia e Napoleão são as que se eternizam na história, é o nome de Juscelino que vai durar mil anos. Ele dizia, certa vez, acreditar ter seu destino escrito numa estrela. Talvez exista aí uma explicação do porquê seu nome brilhe com intensidade maior hoje do que quando era vivo. Ele persiste e continua presente não só na memória da contemporaneidade, mas parece ainda mais vivo quando renascem as esperanças.
A personalidade de JK, de quem revolucionou o presente e contornou crises, sem que apenas cuidasse do expediente para dar conta do recado, correspondeu aos mais generalizados anseios do povo. Sua liderança com visão, que redirecionou os rumos do país sem a ruptura ineficaz dos choques, foi uma experiência extraordinária. Sem esperar milagres divinos, teve a consciência de construir, com generosidade e tenacidade, o que era possível ser feito a partir do existente. E fez muito. Por ser um modelo de liderança política e talento executivo, todos aspiram a ser JK. Ele surge aos seus conterrâneos como um exemplo de que é possível fazer a Nação brasileira dar certo num curto espaço de tempo. Apesar da diferença de quatro décadas que separam os dois tempos distintos, o governo JK é, pela capacidade de construir o “novo” a partir do “velho”, sob o signo da democracia e da legalidade, um paradigma de excelência da gestão da sociedade brasileira, muito difícil de imitar.
Paradoxalmente, a figura do presidente se imortalizou também pela lembrança do homem comum, do mineiro do interior, do amante dos bailes, serestas e prosas. E foi sendo pedestre, comunicativo e próximo que sua imagem se popularizou. O “Peixe-Vivo” era um convite à união, à congregação, à reunião, à amizade e à participação. Havia uma música com este nome que se transformou numa espécie de hino nacional de JK. Seu lado humano era excepcional e apaixonável: galante, boêmio, simples, informal, sensível, caloroso e com um coração generoso do tamanho do país. Era uma criança crescida, espírito sempre alegre e sadio, festeiro como ele só. Esse outro JK completava o visionário, impulsivo e arrojado presidente. Via o poder sem qualquer pretensão de afirmação pessoal, mas com o intuito de aproximar o povo de si próprio. A meta era fazer o Brasil alterar seu ânimo, tomando conhecimento de suas forças recônditas.
Quebrou o tabu de que todo brasileiro era incapaz de mudar seu destino. Mudou o inconformismo e o fatalismo em relação à pobreza. Foi neste ritmo alucinante que o presidente JK tornou-se um pedagogo diante das câmeras. Falando diretamente aos lares brasileiros com o auxílio do recurso audiovisual da televisão, instalada no país há pouquíssimo tempo, apresentava a todos o Plano de Metas, explicava-o com detalhes, debatia, insuflava ânimos e demonstrava periodicamente o andamento dos trabalhos. Falava com energia e disposição, acostumando o povo com as tabelas, gráficos e mapas. E fazia com extrema competência e grandeza. Na verdade, Juscelino fez com que o mais desapercebido dos brasileiros enxergasse, no final de seu mandato, que o Brasil já não era mais o mesmo. O brasileiro parecia outro. E percebeu, assim, o profundo otimismo que um país em marcha saudável de crescimento exerce sobre a auto-estima do seu povo.
A bandeira de suas bandeiras era a esperança. Esta viria com o desenvolvimentismo, com a construção ordenada do futuro. Era a escalada da nação que voava, construía seu progresso com o suor do próprio sacrifício e acelerava o relógio de seu próprio tempo. No seu qüinqüênio de governo, sob os efeitos otimistas dos 50 anos em 5, máquinas e tratores rompiam o silêncio do serrado, das matas, daqueles dois terços do Brasil nunca antes tocados pelo homem. Desbravou o centro do país e impôs a si mesmo o compromisso em transferir a capital do Rio para o Planalto Central até o final do seu governo. Num envolvimento pessoal extraordinário, Juscelino conseguiu, em pleno regime democrático, construir num prazo menor que três anos a maior obra modernista de todos os tempos.
Aqueles esforços e empreendimentos que se levariam à frente no país, seja em qual área fosse, tinham no exemplo de Brasília o elemento encorajador. Tocavam-se simultânea e vorazmente diversas tarefas e obras, sempre naquele “ritmo Brasília” de rapidez e agilidade. Era a estrada longa do desenvolvimento e do avanço social. Conscientemente, Juscelino Kubistchek mostrou que o Brasil, para se abrir ao mundo, precisava também se integrar às vizinhanças. Lançou as bases dessa sonhada integração: criou a Operação Pan-Americana, apostando na vitalidade e nas possibilidades da América Latina.
E numa conjuntura internacional crivada pela Guerra Fria, fez uma arrojada iniciativa diplomática com os Estados Unidos, chamando as nações ricas para assumirem responsabilidades diante dos países em desenvolvimento. JK clamava por corretivos internacionais que rompessem o ciclo vicioso da pobreza que gerava o subdesenvolvimento e o subdesenvolvimento que perpetuava a pobreza. Não aceitava meias soluções e queria cooperação de todos, onde houvesse a possibilidade de diálogo constante. Absorvido pelos imensos problemas internos, o País vivia quase alheio à América que o circundava, ao mundo no qual teria que viver. Apegado à influência ancestral do Velho Continente e ligado à tradição portuguesa por vínculos humanos, era preciso que o Brasil assumisse a sua cravatura latino-americana. O Chefe de Estado Kubitschek queria que a participação da Pátria nos problemas comuns da humanidade fosse sempre proporcional a sua importância geográfica, demográfica, cultural e econômica, fortalecendo o Brasil politicamente no rol das nações adiantadas.
Juscelino viveu e governou rompendo os limites do possível. Fez o impossível com o que havia em suas mãos. Sua trajetória vital foi uma aventura magnífica. Carregado de predicados, zeloso pelos estudos e distinguindo-se de outros companheiros de sua turma, superou suas fronteiras e voou muito mais longe do poderia prever. Saiu de uma casa de duas portas e três janelas de uma ladeira de Diamantina e ergueu para o país um futuro novo em folha. Mudou a face, a atmosfera, o rumo da História. À frente da Alvorada da época, esteve um homem que provou ser possível realizar grandes metas, construir grandes obras, atuar na realidade, transformando-a para melhor. Diante de tantas realizações, o Brasil não saltou apenas meio século em cinco anos. Viveu vários séculos de uma vez.
Criticar os “Anos Dourados” de JK faz parte da imaginação sociológica do país. As “bandas de música” da UDN, os lacerdistas de plantão e os “caranguejos” do litoral fizeram uma oposição esdrúxula, que não aceitava sua posse e suspeitava não só do senso comum, como dos discursos racionais teóricos, dos formuladores e justificadores dos seus projetos e da realidade social. Tendiam a embaraçar aquilo que se tinha como alinhado. A sede de poder e as pretensões eleitorais de certos elementos do cenário político nacional da época acabaram detonando uma crise aguda no país. A renúncia de um presidente e a radicalização do processo político pelo seu vice levou, a partir de 1963, ao estilhaçamento completo da democracia no país. A imagem de JK se dilapidou, fazendo naufragar seus planos de ser eleito novamente em 1965. Acabariam os Anos Dourados e se iniciariam os Anos de Chumbo. Foi um desastre.
Mas a história se encarregaria de reparar este erro. Se hoje estão celebrando o nascimento deste estadista do futuro, é porque todos sentem saudades de JK. Como o Brasil seria outro hoje se ele desse mais cinco anos de vigor ao país! Tudo teria sido diferente. Não se estaria hoje numa cilada econômica sem precedentes, talvez o país fosse até a terceira potência industrial e o maior celeiro agrícola do planeta. Os resultados seriam extraordinários. Mesmo governando apenas cinco anos, foi um dos maiores gênios nacionais de nossa história contemporânea. O que ele fez em termos de progresso e desenvolvimento não deixa nada a dever aos feitos dos bandeirantes e de outros grandes visionários da nacionalidade. Na arena política, foi uma das mais marcantes realizações de nossa conturbada república. E no tabuleiro diplomático, seu discurso de cooperação pelo desenvolvimento foi das mais importantes iniciativas em política externa desde a redentora obra do Barão do Rio Branco.
Acabaram prevalecendo apenas as marcas positivas de um presidente que se transformou em mito, acima de verdades ou mentiras. Democracia e Desenvolvimento. Este foi o binômio de sucesso no governo JK. Uma fórmula que revigorou o país e o seu povo. Poucos sabem, mas a idéia de Brasília brotou lentamente em JK quando esteve na Turquia, ao percorreu o Oriente Médio de navio, numa viagem esticada que fez à França. Soube que os turcos haviam mudado sua capital da velha Istambul para Ancara, construída em paisagem severa no centro da nacionalidade, objetivando expiar o desdém que o povo sentia pelo interior do país, modernizar as massas e tornar as elites mais racionais. Era atualização econômica combinada com introversão geopolítica. E isso foi no ano de 1930, quando JK só tinha 28 anos de idade.
Passando democraticamente e no dia previsto a faixa presidencial ao seu sucessor, Jânio Quadros, JK deixou um país completamente adverso daquele que encontrou ao assumir o governo. Exemplos? Aumentou de 3 milhões para 5 milhões de quilowatts a potência de energia instalada. Construiu Furnas, a segunda estatal brasileira - que abastece hoje quase 70 % do parque industrial - e Três Marias, vetor da industrialização acelerada de Minas Gerais. Sem energia, era impossível ir adiante. Encontrou a Petrobrás produzindo 5 mil barris de petróleo por dia; deixou-a com 100 mil barris! Assumiu com somente 800 quilômetros de rodovias pavimentadas; deixou 12.000 quilômetros, multiplicando por quinze o que havia em 1955!
Construiu mais de mil quilômetros de novas ferrovias e modernizou a RFFSA. Implantou e colocou em funcionamento a indústria automobilística, a indústria naval, a indústria de máquinas operatrizes. Além disso, criou a SUDENE, fez a produção de aço em Volta Redondo triplicar. E com Brasília, transferiu como nunca capitais e investimentos para o interior virgem do país. Na verdade, o que ele fez foi tentar romper o impasse entre capitalismo e socialismo por meio do desenvolvimento. A criação de riquezas pelo progresso duplicaria os bens dos empresários, ao mesmo tempo em que multiplicaria por cinco as perspectivas dos assalariados. Estava no caminho certo da distribuição de renda, tanto que o salário mínimo da época, segundo a Fundação Getúlio Vargas, tinha um poder de compra de 350 dólares. O maior de todos os tempos. Não faltava emprego, o país caminhava a pleno vapor.
Os anos JK foram um salto libertador. O presidente feliz simplificava a política em uma palavra: esperança. E produziu os efeitos mais inesquecíveis que o Brasil já sentiu em termos de benefícios econômicos, sociais e políticos. Moldou suas diretrizes e compreendeu que era necessário avistar novos horizontes para erguer um amanhã com mais dignidade. O presidente Juscelino Kubitschek, em suma, mostrou que para mudar o país, era preciso fazer sacrifícios, trabalhar e aperfeiçoar a democracia.
É muito cedo ainda para que se avalie o real impacto que JK provocou no fórum nacional. Quem sabe o reconheçam no futuro como uma ponte entre tradição e modernidade? Ou ainda aquele que atualizou o projeto nacional brasileiro e traçou um tempo infinito. O estadista que avançou sobre o controle da natureza, marcando-a, redefinindo-a como paisagem inteiramente nova? Talvez concluirão que terá sido um dos maiores milagres da agência humana em toda a sua História.
Enrique Carlos Natalino
* O texto recebeu o Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação 2002/Projeto Memória e foi publicado no Jornal Correio Braziliense, em abril de 2003.
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