terça-feira, 9 de junho de 2009

A Coréia do Norte nuclearizada


Karl von Clausewitz, maior teórico militar do século XIX, dizia que que a “guerra não é apenas um ato político, mas um instrumento real da política”. A ameaça de uso da força para alcançar fins políticos tem sido uma constante na história recente do relacionamento da Coréia do Norte com o mundo. Numa espécie de diplomacia pendular, ora ela aceita cooperar e negocia, ora rejeita qualquer diálogo e eleva o tom retórico.


Em 2007 a Coréia do Norte havia concordado em desmantelar seu programa nuclear em troca de não-agressão e ajuda econômica. O mundo respirava mais aliviado com as imagens da implosão de uma das torres de resfriamento de uma usina atômica e da primeira travessia de trens desde o fim da Guerra da Coréia. O histórico concerto da Orquestra Filarmônica de Nova York em Pyongyang também foi um desses marcos de uma nova era. Enquanto o maestro Lorin Maazel regia The Star Spangled Banner, hino nacional dos Estados Unidos, e os clássicos An American in Paris e Rapshody in Blue, de George Gershwin, um clima de entendimento alimentava esperanças de uma efetiva reaproximação na península coreana.


Tudo isso já é história e ficou no passado. A escalada de tensão vem se agravando novamente com a suspensão unilateral do diálogo em abril do ano passado, a realização de um novo teste de míssil de longo alcance sobre o Japão, o anúncio de uma segunda explosão nuclear subterrânea e o abandono unilateral do armistício de 1953. A cartada nuclear norte-coreana baseia-se num cálculo bastante racional: prevenir-se contra uma invasão e arrancar novas concessões do recém empossado presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que prometeu engajar-se num esforço abrangente de desarmamento nuclear.


O comportamento temerário e os atos belicistas camuflam uma imensa crise política que se abriu com os rumores de que o ditador King Jon-il sofreu um derrame no ano passado. Ao rasgar acordos internacionais como o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), abandonar a mesa de negociações com o Grupo dos Seis (as duas Coréias, mais Estados Unidos, Rússia e China) e exibir sua musculatura militar, King Jon-il dita as próprias regras de um execrável jogo de chantagem atômica e recebe aplausos da ala militar, a força que de fato sustenta sua família no poder há décadas.


O cientista político Raymond Aron, no clássico estudo “Paz e Guerra entre as Nações”, ensina que os Estados buscam alcançar três objetivos centrais: a segurança, a potência e a glória. A segurança é a capacidade de defender ou expandir o território. A potência diz respeito à submissão dos homens. A glória se refere ao triunfo das idéias e das causas. O sentimento de insegurança da Coréia do Norte é preocupante. O regime norte-coreano só sobrevive graças à imposição do terror e da ameaça. Governada por uma autocracia decrépita que mergulhou o país na miséria e no obscurantismo, a estagnação econômica e a escassez de terras agricultáveis agravam as privações da maioria da população, assolada pela fome devastadora e pelos invernos congelantes.


Tentar persuadir a nova potência nuclear do Extremo Oriente a abandonar o programa nuclear já não adianta, porque Pyongyang já tem a tecnologia, os mísseis e a bomba. Resta a possibilidade de reconhecimento de Pyongyang como potência nuclear em troca de seu retorno aos regimes de não-proliferação. Eis uma enrascada para Barack Obama e a secretária Hillary Clinton administrarem.


Enrique Carlos Natalino

Nenhum comentário: