Um olhar sobre o jogo presidencial de 2010 mostra que os atores ainda não estão exatamente posicionados no palco, mas já começam a esboçar algum discurso e polarização. Eis uma análise conjuntural sintética que faço a partir de nomes.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Aglutina todas as forças do status quo. Quer fazer sucessor de seu círculo de confiança para ter garantias de continuidade e eventual apoio numa possível volta à presidência em 2014. É o político mais popular da história recente do país, mas parece não cair nas tentações de prorrogação do mandato ou nas maquinações para conquistar o direito a uma segunda reeleição. Pragmático, tem facilidade em compor alianças heterodoxas e comporta-se na chefia do governo como uma mistura de Sarney e Geisel: conservador em questões internas e esquerdista na política externa, defensor de um capitalismo tutelado e de um neoliberalismo "moral" na condução da ética e dos negócios públicos. O que espera de um sucessor? Que dê continuidade aos seus principais programas de desenvolvimento, gestão pública e política externa, mantenha as alianças já costuradas com os partidos da coalizão PT-PMDB, conserve os milhares de ocupantes de cargos de direção e patronagem em seus postos e pavimente seu retorno na eleição seguinte, quando seria virtualmente imbatível.
Ministra-chefe da Casa Civil Dilma Roussef
Revelou-se uma talentosa articuladora e gestora desde que ascedeu ao Palácio do Planalto no lugar de José Direceu. Militante da ala mais pragmática do PT e fiel aliada de Lula, tem a seu favor a alta popularidade do Presidente da República e a possibilidade teórica de herdar seus votos. Favorece-lhe a visibilidade do cargo estratégico que ocupa no governo e a capacidade de centralizar em torno de si todas todas as atividades do governo federal, tornando-se uma primeira-ministra de facto. Pesa contra sua candidatura o fato de nunca ter disputado eleições e, recentemente, a descoberta de grave problema de saúde. Ainda não se sabe o grau de autonomia que poderia ensaiar diante da agenda política do mentor.
Governador José Serra
Governa o maior estado da federação e dispõe de ampla margem de apoio para credenciar-se como candidato da aliança PSDB-DEM para 2010. Ex-senador, ex-ministro, candidato derrotado ao Planalto em 2002, ex-prefeito de São Paulo e governador de Estado, tem fama de bom administrador. Unificou o PSDB de São Paulo ao acertar-se com Geraldo Alckimin. Pesa contra si a idade avançada e a concorrência da pré-candidatura de Aécio Neves. O perfil ideológico de Serra aponta que um eventual governo do PSDB sob sua batuta aprofundaria o núcleo duro das conquistas econômicas e sociais de FHC e Lula, buscando maior integração entre elas, combinando mudanças incrementais de políticas públicas, como o programa "Bolsa Família", com mudanças profundas em outras áreas, como política externa.
Governador Aécio Neves
Em fim de um segundo mandato e com aprovação alta, ao governador de Minas restam as seguintes opções: a Presidência, a Vice-Presidência ou a senatoria. Pertencente a uma família de políticos tradicionais, neto do ex-presidente Tancredo Neves, Aécio Neves representaria, em primeiro lugar, uma ruptura geracional na política brasileira. Saem de cena políticos cujas carreiras foram moldadas nos anos da ditadura militar para dar lugar a elementos mais jovens. Sua figura tem boa acolhida no partido e entre os mineiros, mas pouca visibilidade fora do limites geográficos de Minas Gerais, exceto Rio de Janeiro. O maior trunfo de que pode lançar mão é o poder de fogo do segundo colégio eleitoral do Brasil e a vitrine de sua gestão modernizadora no Palácio da Liberdade, um capítulo importante na história recente da administração pública brasileira. Próximo de Lula, tem papel chave como articulador.
Café com leite
Na hipótese de Serra ser escolhido, Aécio Neves será o fiel da balança, podendo ser cooptado para a vice-presidência ou para o Senado, eventualmente presidindo-o. Os escândalos que pipocam no Congresso podem desanimá-lo de ir para uma das duas cadeiras em disputa no Senado em 2010, preferindo o cargo de vice no Executivo a adentrar numa instituição manchada pelos maiores escândalos de que se tem notícia há anos. Ainda assim, a via parlamentar não estaria descartada a Aécio se a vice-presidência na chapa de Serra fosse oferecida aos Democratas (DEM) numa negociação ampliada.
A ida de Aécio apara o campo governista parece ser uma manobra no mínimo arriscadíssima, por dois motivos: sem ele o PSDB não teria forças para emplacar outro candidato, mesmo Serra; o PMDB é um partido sem histórico de fidelidade aos seus candidatos, preferindo compor-se com outros após a eleição, seja de que lado for. Assim Seria assaz surreal imaginar que figuras de proa remanescentes do velho MDB do doutor Ulysses e outras não tão ilustres assim do já não tão novo “PEEMEDEIBEM” dos Renans, Barbalhos e Sarneys nadem todos juntos em 2010, estando o PMDB na posse de 6 ministérios, milhares de cargos de confiança no governo federal e bilhões em recursos de patronagem.
Sendo assim, não resta a Aécio outra saída a não ser medir forças com Serra até o último minuto. Sem a disputa, Aécio se enfraquece e perde legitimidade, protagonismo e poder de agenda. Legitimidade, se arriar a simbólica bandeira de uma federação mais equilibrada, de que é portador desde 2003, quando discursou para os mineiros na sacada do Palácio da Liberdade, prometendo uma Minas mais forte para um Brasil mais forte. Protagonismo, se deixar de lado seu emergente projeto político e embarcar sem exigir concessões no barco de Serra ou na canoa furada do PMDB. E, por fim, Aécio ficará sem poder de agenda se não souber aproveitar os resultados do Choque de Gestão para propor novos rumos para o Brasil.
Enrique Carlos Natalino
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