quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Diplomacia, armas e patacas

Batalha Naval de Riachuelo (11 de junho de 1865): o Império vai à guerra para vingar a honra


Infante Estado em processo de consolidação interna e em busca de afirmação externa, o Império do Brasil perseguiu, na segunda metade do século XIX, um projeto de hegemonia regional na Bacia do Prata. O objetivo central era garantir, através do emprego de diplomacia, força e dinheiro, a livre nagevação dos rios, a contenção da formação de um Estado rival em sua fronteira sul, a fixação de fronteiras seguras e estáveis, além do livre comércio.


A queda do ditador Argentino Juan Manuel Rosas, em 1852, marcou o ponto de inflexão das relações entre o Brasil e a Argentina. A vitória do projeto unitarista de Bartolomé Mitre e da elite liberal de Buenos Aires sobre o sonho federalista de Urquiza, em 1861, afinou as ideologias de governo dos dois países em torno de uma agenda comum de abertura à penetração capitalista modernizadora, de eliminação de forças antagônicas marginais, como os blancos uruguaios e o anacrônico patrimonialismo paraguaio, de transformações similares nos países vizinhos e de contenção do expansionismo de Solano López.


Dois eixos conflitantes de poder se cruzavam nos anos de 1860 tendo o Uruguai como o pivô de disputas políticas, econômicas e estratégicas na Bacia do Prata. De um lado, o eixo Buenos Aires-Montevidéu-Rio de Janeiro; de outro, o eixo Montevidéu-Assunção. Ao Império do Brasil e à República Argentina recém unificada por Mitre interessavam um Uruguai independente, com instituições estáveis, aberto ao comércio e aos investimentos, pacificado e governado pelos colorados, seus aliados políticos tradicionais.



Ao Paraguai, que emergia como potência militar e ressentia-se do minguado papel que lhe reservara em assuntos internacionais o subsistema platino, interessava um Uruguai governado por blancos, opção que Solano López , ditador paraguaio, enxergava como a melhor via para romper o isolamento frente à hegemonia brasileira e ao desequilíbrio de Estados. Futuramente, poderia viabilizar a construção de um terceiro Estado de dimensão e potência similar aos dois grandes, reunindo Uruguai, Paraguai, as províncias argentinas de Corrientes e Entre-Rios e eventualmente porções de território brasileiro.



A rebelião colorada liderada por Flores em 1864, com apoio do Brasil e aquiescência Argentina, e a conseqüente queda dos blancos aliados de López dão forma concreta e ameaçadora ao desequilíbrio estrutural da balança de forças que o presidente paraguaio tentava corrigir. Superestimando o poder militar de seu país e sem resposta ao seu ultimato contra a presença brasileira no Uruguai, López lançou ofensiva bélica que incluiu aprisionamento de navios brasileiros, o fechamento do rio Paraguai, a invasão da província de Mato Grosso, a ocupação de território argentino e da cidade gaúcha de Uruguaiana. A agressão paraguaia acelerou os entendimentos entre os governos do Rio de Janeiro, Buenos Aires e Montevidéu em torno de uma Tríplice Aliança capaz de unir forças contra as pretensões agressivas de um Paraguai disposto a tudo para alcançar seus objetivos.



Aliada do Brasil, a Argentina recebeu recursos volumosos que ajudavam a equilibrar as combalidas finanças públicas e liquidar as oposições internas. Ao final da guerra, o Brasil impôs sua vontade ao governo argentino, ameaçando ir à guerra, se preciso fosse, para obstar a absorção de parte do território do Paraguai à Argentina. Esse cálculo do perigo argentino é que motivou a ocupação protetora do Paraguai pelo Brasil até 1876, quando finalmente encerram-se turbulentas negociações de paz e garante-se a independência do país.



Nesse sentido, a principal conseqüência da guerra para as relações argentino-brasileiras reside em que o Brasil teria que negociar com uma nova República Argentina, sem as contradições internas de outrora, em condições plenas de articular as forças produtivas internas, competir externamente e rivalizar no teatro geopolítico do Cone Sul, razão pela qual o Brasil reforçou as preocupações com a ocupação e segurança do sul de seu território. Encerra-se, assim, a fase de intervenção direta do Brasil nos assuntos internos dos seus vizinhos do Cone Sul.



Enrique Carlos Natalino

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