quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Brasileiros e Chineses: Parceiros ou concorrentes?

Brasil e China: duas décadas de cooperação espacial


Brasil e China as duas maiores nações em desenvolvimento do mundo e atores de grande peso em suas respectivas regiões, tendo necessariamente de incluir um ao outro em seus horizontes de política externa. São dois dos quatro países para os quais George Kennan cunhou o termo “monster countries”, em virtude das massas territorial e populacional, do mercado interno, da capacidade produtiva e das riquezas naturais de que dispõem. Os dois países não têm superposição de áreas de influência regional e, portanto, só têm a discutir a cooperação bilateral, o conjunto do quadro internacional e as respectivas posições nesse quadro.


Desde o reatamento das relações diplomáticas entre Brasília e Pequim, em 1974, como parte da renovação da política externa promovida pelo “Pragmatismo Responsável”, do governo Ernesto Geisel, as relações bilaterais se aprofundaram e cresceram progressivamente em comércio, investimento e ciência e tecnologia, resultado da abertura de ambas as economias ao comércio internacional e da partilha de posições convergentes na agenda mundial. O programa espacial sino-brasileiro, existente desde 1988, foi a primeira e grande iniciativa de cooperação entre os dois países, tendo resultado no lançamento do primeiro Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS) em 1999. Em 2006 foi lançado o CBERS-2, em 2007 o CBERS-2B e há previsão do lançamento de mais dois satélites: CBERS-3 (2010) e CBERS-4 (2013).


O fato de o gigante asiático considerar o gigante sul-americano claramente um parceiro confiável, capaz de atitudes altivas e autônomas diante dos grandes desafios mundiais, supridor potencial de alimentos e matérias primas para seu imenso mercado e um parceiro tecnológico válido motivou a atenção renovada que o governo brasileiro resolveu dar às relações com a China a partir da visita do Presidente Lula e de sua imensa comitiva de ministros e empresários a Pequim, em 2004, dando continuidade a uma prática de freqüentes conferências bilaterais entre altas autoridades brasileiras e chinesas que constitui um valioso patrimônio desses 33 anos de relações diplomáticas contínuas.


Na pauta, aumento da densidade das transações comerciais, da cooperação científico-tecnológica e temas multilaterais. Ao Brasil interessava discutir o abrandamento do protecionismo, a reabertura do mercado chinês à carne brasileira e o apoio chinês às pretensões brasileiras de ocupar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, em Nova York. À China, o seu reconhecimento como economia de mercado, fundamental para a adesão plena à Organização Mundial do Comércio, a facilitação de investimentos e acesso ao mercado brasileiro.


O Brasil cedeu reconhecendo a China como economia de mercado e facilitou as importações chinesas, mas não obteve as contrapartidas que esperava: as exportações de carne brasileira tiveram um resultado pífio nos últimos quatro anos e a liderança chinesa se escusa a apoiar o Brasil para uma cadeira no Conselho de Segurança, temendo a entrada do Japão, seu maior rival na região. O Brasil não consegue bater a China no terreno da indústria tradicional e os produtos chineses inundaram o mercado brasileiro. Os últimos superávits comerciais favoráveis ao Brasil no comércio bilateral em breve se converterão num déficit de US$ 1 bilhão, agravando a agonia da indústria brasileira.


A China cresce a taxas superiores a 9% ao ano desde 1979 e conseguiu a façanha de conciliar a economia de mercado com seu regime político monolítico. Conduz uma pragmática, oportunista e agressiva política de exportações baseada no trinômio mão-de-obra barata, absorção de capital/tecnologia e câmbio desvalorizado que conduzirão a um fabuloso superávit comercial superior a US$ 300 bilhões e reservas internacionais de mais de US$ 1 trilhão em 2007. É a maior exportadora, a maior detentora de títulos da dívida americana e, informalmente, já é tratada nos círculos econômicos como a segunda economia do mundo. Busca expandir sua influência econômica em todo lugar onde possa encontra-la e não contempla interesses simétricos em suas relações comerciais.


O saldo dos últimos três anos das relações Brasil-China tem sido desequilibrado. O Brasil deveria rever seus interesses nacionais antes de balizar daqui por diante esse relacionamento tão crucial e equilibra-lo. Deve condicionar a manutenção do reconhecimento da China como economia de mercado à plena liberalização de todos os entraves à carne brasileira e outros produtos. Na frente interna, deve fazer reformas que aumentem a competitividade sistêmica da economia para proteger os empregos dos brasileiros contra os males do capitalismo manchesteriano que rege a grande fábrica planetária asiática. O Palácio do Planalto e o Itamaraty já sinalizaram descontentamento com esses resultados. Espera-se que o realismo esteja nos radares da política externa brasileira.


Enrique Carlos Natalino

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