O conceito de América Latina teria sido cunhado pelo imperador Napoleão III ao referir-se à área de expansão da França no continente americano em fins do século XIX. A denominação genérica para a região de colonização ibérica como um todo receneu foros de legitimidade no começo do século XX e acabou por prevalecer após a Segunda Guerra Mundial como sinônimo de países menos desenvolvidos do hemisfério, com forte significação sócio-econômica. A Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), formulou pela primeira vez uma concepção de América Latina como situação global.
O romantismo seminal do conceito não escapou ao filtro da História e deu lugar à consciência coletiva dos interesses propriamente latino-americanos, plasmados de forma mais sistêmica no processo de gestação de iniciativas de integração econômica regional e sub-regional. O Brasil e outros países sul-americanos fizeram uma leitura diferenciada dentre as muitas existentes no amplo feixe de possibilidades da integração latino-americana e engajaram-se em fazer a melhor política e a melhor economia de sua geografia, no dizer de Celso Lafer.
O precursor mais ilustre dessa iniciativa foi o Barão do Rio Branco, que mesclando o pan-americanismo dos republicanos com as melhores tradições do Império, fez da circunstância sul-americana o foco prioritário da política exterior brasileira, entre os anos de 1902 e
América Latina e América do Sul não são conceitos excludentes na história recente da política exterior brasileira. Ao contrário, são conceitos que se complementam. Na acepção de Fernando Guimarães Reis, a América Latina permanece como circunstância de nossa fantasia e de nosso estar-no-mundo, filtro por excelência do universal, como o sertão de Guimarães Rosa. A heterogeneidade, a pluralidade, as peculiaridades e as contradições dessa imensa região proporcionam pontes naturais entre o Brasil e os povos de colonização ibérica com alguns desafios sócio-econômicos similares aos nossos, indispensáveis para unir as democracias por estreitos vínculos econômicos e valores políticos comuns, além de catalisar mudanças na ordem internacional.
No que toca à América Latina, o Brasil propôs já em
A América do Sul é o espaço em que se forjou nossa educação diplomática e onde se exercita no cotidiano a conversão das velhas fronteiras-separação em modernas fronteiras-integração. Dois empreendimentos político-diplomáticos consubstanciam essa idéia: o Tratado de Brasília (1969) e o Tratado de Cooperação Amazônica (1978) que organizaram, respectivamente, os países vizinhos das bacias do Prata e do Amazonas em torno do compartilhamento pacífico, soberano e compartilhado dos recursos naturais. Fato gerador de sociabilidade e gregarismo, a dispersão das rivalidades entre Brasil e Argentina tornou possível que ambos os países abraçassem uma agenda inédita de cooperação e integração nos anos 80, explicitada no Programa de Integração e Cooperação Econômica Brasil-Argentina (1986) e no Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento (1988).
O êxito dessa aproximação foi de tal ordem que os dois países, mais Paraguai e Uruguai, assinaram, em 1991, o Tratado de Assunção, que criou o Mercado Comum do Sul (Mercosul), o mais ambicioso dos empreendimentos de que o Brasil já participou na América do Sul. O Brasil propôs, em 1993, uma Área de Livre Comércio Sul-Americana (ALCSA), em contraposição à Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), patrocinada pelos Estados Unidos. Em 2000, na I Cúpula de Chefes de Estado da América do Sul, realizada em Brasília, surgiu a Iniciativa para a Integração Regional Sul-Americana (IIRSA), em que os governos acordaram realizar ações conjuntas para impulsionar o processo de integração política, social e econômica, incluindo a modernização da infra-estrutura regional e ações especificar para estimular o desenvolvimento de eixos sinérgicos de integração.
Doze países sul-americanos reunidos na cidade de Cuzco, no Peru, anunciaram em dezembro de
Enrique Carlos Natalino
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