1. Introdução
A exclusão social é um dos fenômenos mais centrais, multifacetados e multidimensionais das sociedades de massas no começo desse século. A ampla mobilização dos governos, empresários, ativistas e cidadãos em torno das conhecidas Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM) [1] e do Fundo Mundial de Combate à Pobreza [2] mostram como o tema encontra-se no centro de um frutífero debate internacional.
Segundo Gilberto Dupas (1999), “as transformações que levaram ao surgimento da discussão sobre exclusão social afetam diversos tipos da vida social – sejam eles culturais, econômicos, sociais, políticos ou psicológicos”.[3] No entender de Garry Rogers (1995), a noção de exclusão social não se refere apenas à falta de acesso a bens e serviços, mas a desigualdades econômicas, políticas e culturais na distribuição de bens jurídicos como segurança, justiça e cidadania. Assim, o autor enumera vários tipos de exclusão: (a) exclusão do mercado de trabalho; (b) exclusão do trabalho regular; (c) exclusão do acesso a moradias decentes e serviços comunitários; (d) exclusão do acesso a bens e serviços (públicos e privados); (e) exclusão de dentro do mercado de trabalho (segmentação em empregos bons e precários); (f) exclusão da possibilidade de garantir uma sobrevivência minimamente digna; (g) exclusão do acesso à terra; (h) exclusão do acesso à segurança (insegurança física, insegurança em relação à sobrevivência e insegurança em relação à proteção às contingências); (i) exclusão dos direitos humanos.[4]
Hillary Silver (1995) mostra que o debate sobre a exclusão social não pode ser dissociada da forma com que cada sociedade enxerga o problema. Para permear a discussão, propõe três diferentes paradigmas para entender a integração social: (a) o “paradigma da solidariedade”; (b) o “paradigma da especialização”; (c) o “paradigma do monopólio”. O “paradigma da solidariedade” estaria ligado ao republicanismo de corte francês, no qual a exclusão é vista como uma ruptura do vínculo social entre indivíduos e a sociedade, cabendo ao Estado ajudar na inserção dos excluídos. O “paradigma da especialização” associa-se ao liberalismo anglo-saxônico e relaciona a exclusão com a discriminação, de modo que não haveria exclusão se os indivíduos tivessem livre trânsito pelas categoriais sociais, garantido pela firmeza das regras instituídas pelo Estado. Por último, o “paradigma do monopólio”, vinculado à social-democracia, alemã segundo o qual a exclusão seria resultado da formação de monopólios de grupos sociais, podendo ser mitigada pela cidadania social-democrática e pela participação de todos na comunidade. [5]
Sobre esse tema simultaneamente socioeconômico, ético e político discorre Lúcio Kowarick em seu artigo “Sobre a Vulnerabilidade Socioeconômica e Civil - Estados Unidos, França e Brasil”, publicado em 2003 num momento histórico de intenso debate mundial acerca da necessidade de combate à pobreza e à exclusão social nos países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Em seu artigo, Kowarick aponta como a noção sociológica de excluídos é demasiado ampla e escorregadia, apontando, a princípio, para todos os contingentes populacionais que estão à margem dos processos sociais básicos, desenraizados de instituições como família, escola, igreja e trabalho, desligados de qualquer participação relevante no mercado e que representam, portanto, indivíduos aos quais se negam os direitos fundamentais para uma vida minimamente digna e se fecham as possibilidades de ascensão social e emancipação humana.
O autor aponta dois diferentes debates que se deram e, em boa medida, ainda se travam no Ocidente sobre vulnerabilidade social: (a) o debate norte-americano, fortemente ideologizado e centrado em torno das noções de subclasse (underclass), condenação dos programas de bem-estar social e imposição de culpa às vítimas; (b) o debate francês, que reconhece a importância do Estado no fornecimento dos meios de inserção social aos marginalizados, mas polemiza em torno da explosiva questão da definição de exclusão e desfiliação social.
Nos Estados Unidos, a hegemonia do pensamento conservador sobre o credo liberal [6] e a investida contra as conquistas sociais do pós-guerra contribuíram para solapar a noção elementar de que todo cidadão americano é sujeito ativo de direitos sociais num Estado com bases capitalistas, democráticas e solidárias. A partir da década de 1980 houve uma retirada estratégica do Governo do papel de construtor de uma sociedade equânime e uma transferência aos indivíduos da responsabilidade por sua condição de vida, desconstruindo prerrogativas cidadãs. Ao invés de culpar o Estado pela omissão, passou-se a simplesmente a deslocar a questão para a esfera privada. A questão social na sociedade mais próspera do planeta transfigurou-se num binômio simples: culpar ou não culpar a vítima pelo aumento da ociosidade e da indolência.
Já na França o debate seguiu outro rumo. Desde a Revolução de 1789, o tripé básico do Estado republicano tem sido construir uma sociedade baseada nos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade. Desde o advento da V República Francesa (1958), há um inquestionável consenso tanto nos partidos de esquerda quanto nos de direita sobre a importância da intervenção estatal para prover meios de inserção social aos indivíduos não absorvidos pelas ondas de progresso econômico e modernização social, reconhecendo-lhes ao acesso a bens materiais, econômicos e culturais. A polêmica nos meios franceses se dá e torno dos conceitos de exclusão e desfiliação, ou seja, quais grupos e classes seriam objeto de auxílio estatal e quais setores não mereceriam ou não seriam partes legítimas no recebimento da assistência governamental.
2. O debate norte-americano: responsabilização das vítimas
A idéia de pobreza nos Estados Unidos sempre teve uma conotação sociocultural fortemente individual e ética, relacionada a atributos como ausência de força de vontade e energia moral. O pauperismo seria sinônimo de erro intencional, indolência, ausência de fibra moral e hábitos viciosos. A raiz desse entendimento pode ser localizada na tradição puritana e protestante americana identificada por Max Weber em sua obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, tradição segundo a qual se elege o individualismo como atributo básico para a conquista da igualdade numa sociedade fundada em ideais igualitários, de independência e iniciativa pessoal. [7] Ou seja, o pobre é um ser marginalizado porque não soube aproveitar as condições de igualdade de oportunidades, é um incapaz de perseverança e desprovido de fibra e treinamento moral para vencer na vida.
Subjacente a essas idéias matriciais surgiu, nos anos 60, um termo para designar o processo de marginalização do mercado de trabalho assalariado e de parcela de mão de obra individual com níveis baixos de qualificação: a noção de subclasses (underclasses). Utilizado no bojo de uma interpretação mais progressista do fenômeno da pobreza, o termo aponta como causa desse fenômeno as grandes mudanças estruturais que marcaram a sociedade americana no segundo pós-guerra. Os estudos acadêmicos e governamentais realizados com base na noção de subclasses serviram de “forte estímulo para fomentar políticas públicas que deveriam fornecer condições para retirar as camadas pobres de sua situação de anomia e marginalização” numa época em que a sociedade americana esteve envolta em fortes clivagens político-ideológicas, com explicações reducionistas e polarizadoras que se resumiam a apontar o racismo e a exploração econômica como causas da pobreza. [8]
Diante do vazio analítico, Kowarick mostra como o pensamento conservador se apropriou do debate, empunhando novamente a bandeira moralizadora das origens dos Estados Unidos para nortear as discussões sobre a marginalidade e a anomia sociais. A noção de “cultura da pobreza” enfatizada por Oscar Lewis na década de 1960 associava novamente o fenômeno à resignação, à passividade ao fatalismo, um resgate de teses tradicionais que foi aproveitada na década de 1980 para legitimar o Partido Republicano em sua política de fazer recuar a presença estatal na economia e na estruturação da ordem social. [9] Inspirados numa espécie de darwinismo social, os programas governamentais de bem estar social foram diretamente culpados pelos republicanos pelo incentivo à ociosidade, à desmotivação ao trabalho, ao esforço e ao sacrifício - devendo ser desconstituídos não apenas em nome da maior eficiência econômica, mas da necessidade de focar a ação estatal na repressão pura e simples às novas ameaças do final do século XX: a criminalidade violenta, a depravação moral e outras mazelas.
A hegemonia do pensamento conservador sobre o liberal foi expresso nas substanciais vitórias políticas republicanas nas décadas seguintes – Ronaldo Reagan (1981-1989), George H. Bush (1989-1993), George W. Bush (2001-2009) e na captura de parte da agenda do Partido Democrata por teses republicanas, como se deu no governo Bill Clinton (1993-2001), cujo segundo mandato foi em grande parte obliterado por maioria congressual republicana. Segundo as teses em vigor na época, as políticas generosas dos democratas prejudicavam a vontade de trabalhar, solapavam as bases da estabilidade familiar e estimulavam comportamentos ilegais.
A prevalência do conservadorismo convenceu a maioria dos eleitores norte-americanos de que havia uma minoria social de desajustados, inúteis, ociosos e desqualificados responsáveis pelas mazelas sociais, pela reprodução da indolência, da anomia e da propensão à criminalidade. Um exemplo claro e ilustrativo foi a iniciativa de tolerância zero ao crime do então prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que propugnava um foco da ação repressiva policial nos bairros mais pobres, problemáticos e densamente povoados da maior área metropolitana da costa leste americana.
Por trás do resgate dos valores familiares, do trabalho árduo, dos laços comunitários e da crença no liberalismo econômico embutia-se a necessidade de impor obrigações, deveres e responsabilidades para a cidadania, colocando em xeque o princípio da prerrogativa de direitos (entitlement). O Personal Responsability and Work Opportunity Reconciliation Act (PROWORA) tornou-se um paradigma dessa nova concepção ao dificultar o acesso aos benefícios, condicionado à exigência de que as pessoas trabalhassem e reorganizassem suas famílias. Embora o termo subclasses (underclasses) tenha caído em desuso nos anos 1990, o núcleo do pensamento conservador continuou de pé na forma de estudos como o de Charles Murray.
Ao se referir às mazelas familiares americanas - crianças problemáticas nas escolas, alcoolismo, promiscuidade sexual e violência urbana - Murray tentou associá-las não apenas à ocorrência da pobreza, mas a um tipo de comportamento moralmente reprovável de determinados grupos à margem da sociedade.
Muito embora Kowarick indique que as razões reais da marginalização social nos Estados Unidos estejam associadas às mudanças tecnológicas e organizacionais, à desindustrialização de vastos cinturões urbanos como a região dos Grandes Lagos, à deterioração e êxodo urbano, à dinâmica das classes e ao preconceito contra minorias, a explicação simplista do argumento conservador capturou os norte-americanos e ainda dita os rumos do debate sobre a pobreza no país.
3. O debate francês: responsabilização do Estado
A tese de que era necessário responsabilizar exclusivamente o indivíduo por sua condição social parece ter ficado restrita a um lado do Atlântico. Do outro lado, na França estatocêntrica, o État Providence ou État Social é um considerado um patrimônio nacional, uma conquista do pós-guerra tão profundamente enraizada no imaginário político-cultural francês ao ponto de bloquear qualquer tentativa de reforma ou reestruturação mais ampla, combatidos com monstruosas mobilizações em massa, paralisações de serviços públicos, agitações dos sindicatos e estragos inevitáveis na imagem dos políticos. Assim sendo, retirar o debate do Estado para focá-lo na sociedade é um não-assunto na França, pois se constituiu um pacificado consenso sobre o papel da ação governamental para combater a exclusão social e econômica.
A questão social na vida francesa problematizou-se em quatro grandes vetores. No período entre reconstrução do pós-guerra e o fim dos anos 60, o problema central a ser atacado era o da moradia, o que motivou o desencadeamento de um vasto programa de renovação urbana e construção de conjuntos habitacionais. Já em meados dos anos 70, o foco direcionou-se para a assistência aos “deserdados da fortuna”, os socialmente excluídos identificados na famosa obra “Les exclus: um français sur dix”, de René Lenoir (1974), político de filiação gaullista que posteriormente integrou o gabinete de Jacques Chirac como secretário de Estado da Ação Social.
Segundo Lenoir, a despeito do crescimento econômico e da melhoria das condições de vida da sociedade, era preciso cuidar especialmente dos elementos deslocados e inadaptados (“handicapés sociaux”) com políticas específicas de proteção social, pois “trata-se de uma outra França [...] à margem da normal [...] mas que, não obstante sua situação de excepcionalidade, constitui uma gangrena que ameaça [...] o conjunto do corpo social”.[10]
A terceira abordagem da questão social, na segunda metade dos anos 80, passou a centrar-se em torno da realidade dos novos pobres “expelidos pela dinâmica do progresso”, os “handicapés légers”, indivíduos que nos trinta anos gloriosos do pós-guerra tinham empregos, mas que com a Terceira Revolução Industrial haviam sido afetados pela precarização econômica e social. Em seguida, a questão social se reconfigurou em torno da situação de extrema vulnerabilidade, passando a englobar um grande e variado grupo de excluídos diretamente afetados pela crise do trabalho, pelo rebaixamento social e pela dissolução de laços de sociabilidade primária.
Kowarick mostra que a transição da primeira para a última concepção poderia ser resumida numa metamorfose da questão social como sinônimo de “anormais incapazes” para “normais inúteis”. Por fim, Kowarick alude à perda de identidades sociais, processo culminante da vulnerabilidade social e econômica, advinda do
desenraizamento familiar e comunitário, à queda da participação em associações recreativas, sindicais e partidárias, processos que conduzem à apatia e ao isolamento em um cenário social e político marcado pela diminuição dos conflitos abrangentes, fragmentação dos atores sociais e diluição dos interesses coletivos.[11]
Ponto fundamental do debate social France são as condições de vida dos bairros operário-populares periféricos das grandes cidades (Paris, Lyon, Marselha, Toulosse, Dijon, Nantes, Rennes, Bordeaux), as chamadas banlieues, palcos de freqüentes explosões de violência urbana que quase sempre se iniciam com a reação policial a depredações, brigas de rua, pequenos delitos e outros atos contra a ordem pública cometidos pelos jovens, especialmente filhos de imigrantes pobres.
Segundo Kowarick, tais revoltas não têm caráter reivindicatório, mas são atos que expressam sentimentos difusos de insatisfação, desespero, ódio e vazio existencial. Para Robert Castel (1995), a cultura da delinqüência volta-se contra os agentes públicos e, sobretudo, contra a polícia. Não visa reivindicar níveis maiores de participação ou superar problemas concretos, mas simplesmente “perambular na superfície das coisas, aprimorar-se em nada fazer, ir de um lugar a outro sem ir a lugar nenhum” [12]
O esfacelamento do modo de vida operário-popular e o isolamento físico e sociocultural da pobreza em grandes conjuntos habitacionais na França multiplicaram o potencial cronicamente agressivo da marginalidade. Nesses espaços de segregação social são altíssimos os índices de desemprego, baixíssima a qualificação das pessoas e elevadíssima a penetração de radicalismos étnico-religiosos, três combustíveis inflamáveis que se somam à prevalência de sentimentos negativos como desânimo, desesperança, resignação e indiferença. A questão das banlieues agrava a fratura social, desfaz a cidade como espaço de convivência coletiva e implode os fundamentos da paz social, já que a violência se volta contra aqueles que compartilham o mesmo espaço público.
Diante de tais mazelas, qual tem sido a abordagem do Estado francês para lidar com as vítimas da “desqualificação” e da “desinserção” (enfraquecimento dos laços relacionais e estigmatização que acabam induzindo ao retraimento, à resignação ou à rebeldia) sociais? Quatro têm sido as zonas que identificam a situação de um indivíduo no que diz respeito ao trabalho e à sociabilidade primária (família, vizinhança, comunidade): (a) a zona de integração caracteriza-se pela presença de um vínculo de trabalho permanente e pela solidez das relações sociais; (b) a zona de vulnerabilidade conjuga precariedade do trabalho com fragilização da sociabilidade primária; (c) a zona de assistência indica a necessidade de subsídios públicos para que não ocorra um desligamento social e econômico; (d) a zona de desfiliação combina desemprego e perda de raízes comunitárias.
No âmago da questão encontra-se a crise da sociedade salarial forjada no ambiente do pós-guerra, responsável pela estabilidade, proteção e segurança dos indivíduos contra as incertezas - pilares que compunham o edifício e a maquinaria públicas de regulação econômico-social sustentadora da legitimidade da República. Segundo Castel, a fratura da zona de integração vem forçando um crescimento das zonas de vulnerabilidade e desfiliação, indicando também a necessidade de reforço do assistencialismo estatal como solução apaziguadora do aprofundamento dos hiatos sociais. [13] Kowarick mostra, entretanto, que
A problemática central do atual sistema político francês reside em gerar instâncias de combate à vulnerabilidade econômica, social e urbana. Não é por outra razão que a forte presença da ação pública, ao procurar mediar as formas de solidariedade, encontra-se em outro universo de tradição do individualismo norte-americano, apoiada na valorização da work ethics e nos perigos, não raramente persecutórios, da welfare dependency. [14]
O que se debate na França, em suma, é quais seriam as melhores alternativas de mediação desses conflitos através da ação do Estado. A exclusão e o esgarçamento do tecido social naquele grande país da Europa Ocidental aparecem no topo do debate político e no âmago das preocupações de fortalecimento do aparelho estatal como instrumento de combate às fraturas que ameaçam a paz pública e o equilíbrio nacional. Ao contrário da concepção individualista dos Estados Unidos, a fórmula republicana francesa reconhece claramente como responsabilidade e dever do Estado proteger todo cidadão que viva em seu território, pois é um sujeito, um cidadão que, antes de mais nada, tem o “direito a ter direitos”, na moderna acepção da Hannah Arendt. [15]
4. O Debate brasileiro: cidadania incompleta
Quais discursos e ações pautaram o debate acerca problemática social na realidade brasileira nas últimas décadas? Em que ele se diferencia da discussão que se trava Estados Unidos e na França?
Segundo Kowarick, a estruturação discursiva no Brasil não reside em culpar o pobre pela sua pobreza, pois a magnitude do pauperismo é tão visível e onipresente que ultrapassa o simplismo de explicações moralistas como as apregoadas pelo conservadorismo norte-americano. A imensa massa de desvalidos existente no Brasil também impede que se afirme que haveria no país igualdade de oportunidades para todos competirem e ascenderem socialmente através do trabalho, do esforço e do mérito.
No Brasil, como na França, também se atribui ao Estado a responsabilidade por uma ação pública contra a pobreza, como se verifica na própria Constituição da República Federativa do Brasil de
Inversamente ao caso francês, a capacidade de responsabilização do Estado no Brasil é limitada pela pequena envergadura de sua ação social – minada em grande parte pela ineficiência administrativa, insuficiência de recursos, corrupção, falta de planejamento e má gestão. Daí o forte coro que apregoa a desresponsabilização do Estado e a desconstitucionalização dos direitos econômicos e sociais dos cidadãos, substituindo-os por ações de cunho humanitário.
Ao invés de culpar as vítimas, um mecanismo de controle e acomodação social fortemente utilizado no Brasil é o de naturalizar acontecimentos e conflitos, retirando qualquer responsabilidade que venha a pesar sobre seus ombros acerca de sua condição social. No entender de Kowarick, ao retirar do pobre a condição de sujeito e atribuir-lhe a pecha de “coitado”, “desvalido”, “deserdado da sorte”, vítima da sina, acaba-se por naturalizar as relações sociais como um espaço de exclusão por excelência.
Trata-se de discursos de imponderabilidade que seguem as leis incontroláveis da natureza ou a inevitabilidade daquilo que é assim porque assim sempre foi. A atualização desses acontecimentos proclama as leis inescapáveis do mercado, da globalização, do avanço tecnológico ou da hierarquia social e, dessa forma, acaba por levar à individualização da questão do pauperismo. [16]
A segunda estratégia de controle e acomodação de conflitos muito utilizada no Brasil é a neutralização. Através da persuasão, do constrangimento e da coerção, cada pessoa é impelida a permanecer na posição ou estamento que ocupa na vida social, sem questioná-lo, “uma forma de discriminação escrachadamente marginalizadora”.[17] A singela frase “você sabe com quem está falando?”, magistralmente dissecada por Roberto DaMatta em sua obra “Carnavais, Heróis e Malandros”, é a expressão mais bem acabada dessa prática soez que reproduz e sacramenta as desigualdades de uma sociedade que não vê regida por leis igualitárias e impessoais, mas se estrutura de forma essencialmente vertical e hierárquica, como a pirâmide do feudalismo medieval.
Formas de controle e acomodação e social são a humilhação, a extorsão, a agressão, o espancamento, o homicídio e outras tantas atitudes de violência e desrespeito aos direitos humanos. Wanderley Guilherme dos Santos [17] fala na existência de um hobbesianismo social no Brasil que alimenta a cultura cívica da dissimulação,
pois as pessoas se encontram isoladas e enredadas por sociabilidades fragilizadas, temem a convivência, desconfiam e desacreditam das instituições jurídicas e policiais e, em conseqüência, negam e sonegam os conflitos e as variadas modalidades de vitimização a que freqüentemente são submetidas. [18]
Além da análise de Guilherme dos Santos, Kowarick menciona ainda duas outras interpretações: a de Francisco de Oliveira sobre a desclassificação dos conflitos e das reivindicações das classes dominadas e a de José de Souza Martins, a respeito da existência de uma separação estamental de mundos tipicamente medieval no Brasil. A especificidade do caso brasileiro, segundo o autor, é a presença de “vastos processos de vulnerabilidade socioeconômica e civil que conduzem ao que pode ser chamado de processo de descidadanização”. [19]
Em síntese, Kowarick mostra que na realidade brasileira, ao contrário da norte-americana e da francesa, o debate sobre a questão da exclusão social é muito mais central, pois se relaciona com a própria estrutura organizacional da nação, marcada por um histórico e brutal processo de marginalização de amplos contingentes humanos da cidadania, que no dizer de José Murilo de Carvalho, percorreu e ainda percorrerá um longo caminho para esquivar-se dos impasses que obstaculizam sua plena realização concreta. [20]
Enrique Carlos Natalino (Outubro/2009)
Notas:
[1] As Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDM) surgem da Declaração do Milênio das Nações Unidas adotada pelos 191 Estados-membros em 8 de setembro de 2000. Resultou de um esforço para sintetizar acordos internacionais alcançados em várias cúpulas mundiais ao longo dos anos 90 (sobre meio-ambiente, direitos humanos, desenvolvimento, direitos das mulheres, desenvolvimento social, racismo, etc.). A Declaração arrola um conjunto de compromissos concretos com prazos fixados e indicadores quantitativos de acompanhamento para a melhoria do destino da humanidade neste século. As 8 Metas, com seus 18 objetivos e 48 indicadores, servem de alavancas sistêmicas para a elaboração de políticas públicas adaptadas às condições de cada sociedade. São elas: (a) Meta 1 - Erradicar a pobreza extrema e a fome; (b) Meta 2 - Atingir o ensino básico universal; (c) Meta 3 - Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; (d) Meta 4 - Reduzir a mortalidade infantil; (e) Meta 5 - Melhorar a saúde materna; (f) Meta 6 - Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; (g) Meta 7 - Garantir a sustentabilidade ambiental; (h) Meta 8 - Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.
[2] A iniciativa a que se faz referência aqui foi discutida na Conferência de Imprensa sobre o Fundo Mundial de Combate à Pobreza, realizado em Genebra em 31 de janeiro de 2004, com a presença dos presidentes da República Federativa do Brasil (Luiz Inácio Lula da Silva), República do Chile (Ricardo Lagos), República Francesa (Jacques Chirac) e do Secretário Geral das Nações Unidas (Kofi Annan).
[3] Gilberto Dupas. Economia Global e Exclusão Social. 3ª edição, São Paulo: Paz e Terra, 1999, p. 20.
[4] Rogers, 1995 apud Dupas, 1999, p. 20.
[5] Hillary Silver. Reconceptualizing social disadvantage: three paradigms of social exclusion. In: Garry Rogers; Charles Gore; José Figueiredo (orgs.). Social exclusion: rethoric, reality, responses. Genebra: International Institute for Labor Studies, 1995 apud Dupas, 1999, p. 252.
[6] Lembrar-se-á que o termo liberal, em inglês, não tem a mesma conotação que possui em português, pois se vincula não à escola econômica liberal, mas ao pensamento político de esquerda ou centro-esquerda.
[7] Kowarick, 2003: p. 63.
[8] Kowarick, op. cit, p. 64.
[9] Idem.
[10] Lenoir, 1974, pp. 10 e 36 apud Kowarick, 2003, p. 70.
[11] Kowarick, op. cit, p. 71.
[12] Robert Castel. Les pièges de l `exclusion. Lieu Social et Politiques, Revue Internacional d’Action Communautaire, 1995b, 34 apud Kowaick, 2003, p. 71.
[13] Robert Castel. Le metamorphoses de la question sociale: une chronique de salariat. Paris, Fayard, 1995a apud Kowarick, 2003, p. 73.
[14] Kowarick, op. cit, p. 75.
[15] Celso Lafer. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, pp. 13-31.
[16] Kowarick, op. cit, p. 77.
[17] Idem
[18] Wanderley Guilherme dos Santos. Fronteiras do estado mínimo: indicações sobre o híbrido institucional do Brasil. In: Razões da Desordem. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.
[19] Santos, 1994, p. 100 apud Kowarick, 2003, p. 78.
[20] Kowarick, op. cit, p. 78.
[21] Jose Murilo de Carvalho. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 5ª edição, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
