sexta-feira, 10 de julho de 2009

Diplomacia chavista ao ataque



Quais os objetivos externos do governo Hugo Chávez? O primeiro ponto da agenda internacional de Chávez, desde que assumiu o poder, foi aproximar-se dos demais países membros da OPEP e buscar maior projeção para a Venezuela dentro do bloco. Natural para um país exportador de commodities que almeja ampliar o seu poder de barganha comercial. Em segundo lugar, a aproximação estratégica com o regime socialista de Cuba, que serve inegavelmente de modelo distante para a revolução bolivariana, fornecendo recursos humanos, conhecimento e experiência para os programas sociais do governo.


Definidas estas duas vertentes básicas, o passo seguinte foi buscar uma parceria com o Brasil e a Argentina e, mais recentemente, com a Rússia e Espanha, na tentativa de fazer contraponto aos Estados Unidos, sem prejuízo do comércio bilateral de petróleo. Lembrar-se-á que a Espanha, Rússia e Brasil foram os países que mais venderam armas para o programa de reequipamento das forças militares venezuelanas.


A aproximação com a América do Sul (leia-se com o Brasil) é o eixo vital do projeto bolivariano da diplomacia venezuelana, que pretende buscar a integração física, econômica, social, cultural, política e militar do continente. No final do governo FHC, o Brasil chegou a suprir a Venezuela com petróleo refinado e gasolina, no episódio da greve geral da PDVSA que paralisou o país em 2002. A aproximação com a Venezuela, que Lula reclama ser iniciativa sua, na verdade foi iniciada pelo chanceler Lampreia à frente do Itamaraty, a partir de 1995, que se consubstanciou na visita presidencial de Rafael Caldera a Brasília naquele ano. Chávez e FHC também mantiveram relações boas e produtivas, ao que Lula deu continuidade com o fortalecimento da parceria.


A agenda de um país emergente do quilate do Brasil ou da Venezuela exige uma diplomacia regional pró-ativa e vigorosa, que contemple a integração estratégica das infra-estruturas. Isso já vem sendo feito, a contento, desde FHC. Mas Chávez tem ambições de gigante e vem costurando aquilo que denomina “força contra-hegemônica” ou “contra-imperial” no continente sul-americano, que começou com os ataques à ALCA, ao Plano Colômbia de Pastrana-Uribe e ao golpe de Estado de 2002. Em resposta à ALCA, Chávez propôs a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas). Em outra vertente, Lula encampou o projeto do governo Itamar Franco da ALCSA (Área de Livre Comércio Sul-Americana), transformando-a naquilo que chamaria-se CASA (Comunidade Sul-Americana de Nações), rebatizada de UNASUL (União Sul-Americana).


Não têm faltado iniciativas integracionistas chavistas no continente. Chávez fundou Tv Sur, responsável por transmitir programação "contra-hegemônica" para os vizinhos. Outra iniciativa sua, o Banco do Sul, está emperrada e ameaça esvaziar outras instituições, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Ainda não existe consenso sobre a necessidade de outra instituição financeira regional de capital público. A pièce de resistence de Chávez é uma espécie de Organização do Tratado do Atlântico Sul, ainda sem formato. Mas como integrar as Forças Armadas e as políticas de defesa da América do Sul sem, antes, que os países se entendam em temas básicos como soberania e não-ingerência em assuntos internos, como ficou claro na crise Colômbia-Equador e, hodiernamente, no episódio de Honduras?


A obra neobolivariana tem feito da Venezuela uma disneylândia das esquerdas, todas órfãs depois que o socialismo e a URSS viraram pó, o muro de Belim ruiu, a China se tornou ícone do capitalismo e saiu de cena o coma-andante de Cuba.

Enrique Carlos Natalino

BRICs: um espaço de convergência


Houve recentemente a primeira Cúpula dos BRICs, em Ekaterimburgo, na Rússia. O embaixador e Secretário-Geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, em sua obra “Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes”, ressalta que num ranking dos países com os maiores territórios, populações, mercados internos, recursos naturais, potenciais agrícolas e parques industriais, o Brasil sempre figura entre os primeiros colocados. As formidáveis potencialidades do Brasil, segundo o diplomata, conferem-lhe as credenciais necessárias para o exercício de um papel mais assertivo nas relações internacionais, não somente nos âmbitos regional e hemisférico, mas também no xadrez global.


Enquanto a América do Sul permanece como a área prioritária da política externa do Brasil, que se engaja num ambicioso processo de integração a médio e longo-prazos, e a América do Norte e a Europa continuam os tradicionais parceiros, foram identificados novos eixos de expansão dos interesses econômicos, políticos e culturais brasileiros na vertente Sul-Sul. Esse direcionamento vem sendo esboçado desde o governo Kubitschek e a Política Externa Independente (PEI) dos presidentes Quadros e Goulart, mas somente nos anos 70 é que ganhou densidade e contornos mais definidos, a partir da aproximação com a África atlântica, com os países árabes, com as nações socialistas e com a China comunista.


Considerando a ênfase dada pelo Presidente Luís Inácio Lula da Silva à abertura de novas frentes de concertação diplomática multilateral e à diversificação de parcerias estratégicas com países em desenvolvimento, houve um fortalecimento das relações bilaterais com Rússia, China, Índia, África do Sul e um aumento considerável das trocas comerciais com cada um desses países. Rússia e Brasil entendem-se bem em questões políticas e de segurança nos organismos internacionais, inclusive no que concerne à ampliação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. China e Brasil têm um valioso programa de cooperação tecnológica na área espacial e constituem a ponte-de-lança do G-20 na Organização Mundial do Comércio (OMC). Brasil e Índia atuam conjuntamente na Rodada de Doha e apóiam-se mutuamente para ingressar no clube de elite da ONU. África do Sul e Brasil convergem em vários temas como segurança internacional, agricultura, ciência e tecnologia e combate á pobreza.


O empenho da chancelaria brasileira se traduziu em visitas presidenciais cada vez mais freqüentes a esses países, missões ministeriais e empresariais de impacto, assinatura de acordos de cooperação em várias áreas e a criação de novos canais de diálogo e atuação diplomática conjunta. O fortalecimento do papel central da ONU e de seu Conselho de Segurança, dando-lhe maior representatividade com a inclusão de representantes influentes dos países em desenvolvimento é um desejo que une Índia, Brasil, Japão e Alemanha no chamado G-4, criado para formalizar as candidaturas dessas quatro nações a um assento permanente ao lado de Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China.


Índia, Brasil e África do Sul, como as grandes democracias multiétnicas e multiculturais da Ásia, América Latina e África com desafios e interesses semelhantes, resolveram criar em 2003 o IBAS, um fórum trilateral para a busca de soluções de consenso nas instâncias decisórias multilaterais. Vem se discutindo a possibilidade de um acordo de livre-comércio entre a América do Sul, a África Austral e o subcontinente indiano para encurtar as distâncias entre povos e entre continentes, a melhor resposta a uma ordem internacional desigual e incapaz de resolver os problemas de desenvolvimento e segurança coletiva.


O esforço de aprofundamento das relações Sul-Sul não se resume aos quatro grandes Estados citados. O Brasil tem sabido adaptar-se ao deslocamento do eixo dinâmico da economia mundial para a Ásia e vem universalizando cada vez mais sua política externa para somar à condição de global trader, alcançada desde os anos 70, a de global player – o que requer assumir grandes ônus e responsabilidades. Sua diplomacia extremamente profissionalizada tem sabido identificar e coordenar interesses e oportunidades globais, de que é um ótimo exemplo a ênfase dada às parcerias no setor de tecnologia de produção dos biocombustíveis.


Ao pleitear uma globalização mais justa, simétrica e solidária, o fortalecimento da democracia e dos direitos humanos, a defesa do meio ambiente e da diversidade étnica e cultural, o aperfeiçoamento dos mecanismos de regulação e controle dos fluxos financeiros internacionais, a reforma das organizações multilaterais, ações coordenadas de combate à pobreza, à miséria e às pandemias e a aproximação entre regiões e povos geograficamente distantes, o Brasil mostra-se preparado a assumir os grandes desafios para competir em condições de igualdade na era dos gigantes.


Enrique Carlos Natalino

O Mercosul em frangalhos



A integração da América do Sul é um dos eixos condutores da diplomacia brasileira. O entendimento compartilhado pelos governos de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai de que o mundo pós-Guerra Fria marcado pela globalização e pela consolidação de grandes blocos exigia uma resposta concertada regional viabilizou a criação do Mercado Comum do Sul (Mercosul).


O Mercosul trouxe inegáveis conquistas para o entorno regional: aproximou brasileiros e argentinos, antigos rivais; aumentou o comércio intrazonal; fortaleceu a posição de barganha internacional que cada um dos países não dispunha isoladamente; aprimorou os valores da paz, do diálogo, da democracia, da cooperação, dos direitos humanos, de respeito à diversidade cultural e do desenvolvimento sustentável no contexto sul-americano; alavancou os primeiros projetos de interconexão entre infra-estruturas nacionais que há poucos anos se ignoravam completamente; deu substância à idéia política de América do Sul.


Absorto numa política externa que busca a ampliação da influência dos países em desenvolvimento nas decisões econômicas e políticas globais, o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva considera a integração sul-americana um ambicioso empreendimento político-diplomático, conforme se pode constatar no enorme esforço devotado à melhoria das relações com os países vizinhos, à criação da União Sul-Americana e ao aprofundamento do Mercosul.


O Brasil tem reiterado em todas as cúpulas de Chefes de Estado do Mercosul que considera o Mercosul uma uma plataforma importante de inserção estratégica regional para o adequado aproveitamento das oportunidades e dos recursos econômicos disponíveis, a superação da marginalização social, o combate às assimetrias e a busca do desenvolvimento e da justiça social como objetivos nacionais valiosos que só podem ser alcançados conjuntamente, como se pode aferir da experiência da União Européia.


Se a integração européia tem um histórico de conquistas e reveses, avanços e paralisações, fases de otimismo e ceticismo, ameças de ruptura e defecção, com o Mercosul não tem sido diferente. Suas fragilidades foram evidenciadas com as crises econômicas que solaparam o Brasil (1998 e 1999) e a Argentina (2001 e 2002), expondo a lógica pouco construtiva de utilização do bloco como uma estratégia de cada país para a resolução de seus problemas internos, sem definição clara de quais são os interesses comuns dos países-membros.


Os problemas mais evidentes do Mercosul decorrem:

i) da resistência ao enfrentamento do déficit institucional e da recusa de sacrifício das soberanias nacionais em nome de instituições supranacionais autônomas, depositárias dos interesses comuns e com o papel de homogeneizar o processo integrador;

ii) da falta de convergência e coordenação das políticas públicas, apesar dos avanços significativos nas negociações comercias interregionais e dos projetos de integração da infra-estrutura;

iii) da fragilização da Tarifa Externa Comum (TEC) e da adoção de medidas protecionistas e compensatórias em franco desacordo com as normas do bloco;

iv) da não-aplicação plena das regras vigentes e dos mecanismos de solução de controvérsias nas disputas internas (comerciais, políticas e econômicas) cada vez mais freqüentes;

v) da perspectiva do aumento do número de membros plenos com a incorporação da Venezuela e, possivelmente, da Bolívia, com conseqüências sérias para a eficácia e a consolidação do processo decisório do Mercosul.


Há uma clara percepção de que tais desafios exigem do Brasil, maior país do Mercosul, um esforço diplomático firme no sentido de levar adiante uma agenda de reformas revitalizadoras para arrancá-lo da paralisia. Uma nova institucionalidade, com diferentes velocidades e com maior flexibilidade na aplicação das regras poderá ser uma perspectiva futura a médio-prazo para resolver alguns impasses. É fundamental definir se a entrada de novos membros com opções políticas, visões de mundo e agendas de trabalho diferenciadas (medidas nacional-populistas, Banco do Sul, megagasoduto) não criará embaraços insuperáveis ao avanço e sobrevivência do Mercosul como união de países com economias abertas, regimes democráticos representativos e sociedades plurais.


A sobrevivência do Mercosul é fundamental para a manutenção da autonomia do Brasil no contexto da globalização, condição indispensável para a estruturação de um projeto nacional que permita ao país constituir-se no núcleo de um dos pólos de um sistema internacional multipolar.

A dimensão ambiental da política externa brasileira


A grande dimensão territorial, o tamanho da área costeira, os imensos rios, a presença de vastas florestas e riquíssima biodiversidade são diferenciais naturais que trouxeram e trazem singular visibilidade internacional ao Brasil. De país fechado às questões ecológicas e de atitudes externas defensivas, tornou-se em apenas duas décadas um líder de negociações multilaterais sobre meio ambiente e um respeitado formulador de propostas. A temática ambiental tem sido um item central na agenda pública brasileira e alguns fatos internos e externos ajudaram a moldar essa diretriz.


No plano interno: a redemocratização, a reorientação e abertura das políticas públicas, a maior interação entre grupos ambientalistas da sociedade civil e o Estado brasileiro, a criação do Ministério do Meio Ambiente e de secretarias equivalentes nas esferas estaduais e municipais e a promulgação da Constituição de 1988, documento que consagrou na ordem jurídica brasileira princípios fundamentais como o direito ao “meio ambiente ecologicamente equilibrado” e o dever imposto aos poderes públicos e à coletividade de “defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”, expresso em seu art. 225, caput.


No plano externo, a participação do Brasil em três encontros internacionais de grande importância: i) a Conferência de Estocolmo (1972), na qual sua postura enfatizou a necessidade de discussão da temática do meio ambiente num contexto mais amplo de direito ao desenvolvimento; ii) a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), primeira reunião internacional de grande magnitude após o fim da Guerra Fria e que contou com delegações de 175 países. Além de sediar o evento, o Brasil tomou a dianteira da diplomacia ambiental e defendeu um compromisso global com o desenvolvimento sustentável a partir de uma visão voltada para a cooperação, a solidariedade e as futuras gerações; iii) a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+10), em Joanesburgo (2002), na qual o Brasil reafirmou seus compromissos passados e propôs acelerar a tradução do conceito de sustentabilidade em ações concretas.


Entre os principais temas ambientais com os quais o Brasil vem lidando na agenda internacional, figuram-se os seguintes:

i) florestas – participa ativamente do Foro Intergovernamental sobre Florestas, subordinado à Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, no qual empenha-se em buscar uma abordagem mais positiva de temas de seu interesse, como a valorização e comércio de produtos florestais e a aplicação de conhecimentos tradicionais;

ii) mudança de clima - adotou a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança de Clima, em 1992, e o Protocolo de Quioto, em 1997, compartilhando das preocupações com a poluição e o aquecimento global, mas resiste junto a outras nações em desenvolvimento na adoção de compromissos e metas de redução da emissão de gases na atmosfera;

iii) diversidade biológica – assinou a Convenção sobre Diversidade Biológica no âmbito da Rio-92, cujo mérito foi instaurar um novo modelo internacional garantidor da soberania dos Estados sobre os recursos genéticos e do direito de cada um determinar, por lei nacional, o regime de acesso aos recursos de sua biodiversidade. Foi de grande interesse para o Brasil, que detém de 15 a 20% da biodiversidade do planeta.


Outros temas que também despertam crescente atenção do Brasil são: biossegurança, desertificação, populações indígenas e resíduos perigosos.


A natureza heurística do conceito de desenvolvimento sustentável associa a preocupação com o meio ambiente com as não menos legítimas demandas brasileiras por crescimento econômico, por uma globalização mais inclusiva e equânime e a erradicação da pobreza e da miséria. Ao transcender interesses específicos, a posição da diplomacia brasileira consubstancia uma visão focada na interdependência construtiva de soberanias e na valorização das instâncias da sociedade civil para a definição de esforços de superação de atividades predatórias e promoção de alternativas mais sustentáveis de promoção do bem-estar e da equidade social.


A introdução de políticas democráticas de manejo das bacias hidrográficas, o uso de avaliações de impacto ambiental, o aumento do número de unidades de conservação, o programa do etanol e o empenho na Rodada de Doha, na implementação das Metas do Milênio e na efetivação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Quioto mostram que o Brasil trabalha ativamente para concretizar os compromissos internacionais assumidos no tocante ao desenvolvimento sustentável. Esses fatores têm constituído a vis directiva da postura brasileira que vincula meio ambiente ao desenvolvimento e uma alavanca importante de modernização da sociedade, do Estado e da economia. O tema mais sensivel, a requerer ações mais inteligentes e coordenadas do Estado brasileiro, contudo, continua a ser o desmatamento amazônico.


Enrique Carlos Natalino

Fotografias, apertos de mão e banquetes


As reuniões de cúpula (ou cimeiras) de Chefes de Estado e Governo não foram uma criação do final do século XX. Sua importância para as relações interestatais é notória, como se pode recordar das conferências de Westfália (1648), Viena (1815) e Versalhes (1919). A título de ilustração, os países da União Européia (antigo Mercado Comum Europeu) promovem reuniões periódicas de seus líderes para tomar decisões, apontar caminhos e resolver impasses desde os anos 1950.


A estréia do Brasil nas grandes conferências internacionais se deu em Haia, em 1907, com a brilhante atuação de Rui Barbosa como delegado plenipotenciário. Desde então, o Brasil sempre procurou aprimorar-se no aprendizado constante do multilateralismo e a fazer-se ouvir através de ativa participação em foros internacionais. Com a superação das clivagens da Guerra Fria, esses instrumentos de concertação diplomática ganharam um peso enorme e o Brasil foi um dos países que mais souberam dele aproveitar-se para a promoção de seus interesses nacionais.


As grandes conferências internacionais sobre meio ambiente e desenvolvimento (Rio de Janeiro, 1992), direitos humanos (Viena, 1993) e comércio (Marrakesh, 1994) refletem a abertura de uma preciosa janela de oportunidade para a convergência das nações em torno de uma visão kantiana, idealista e solidária. Sendo o espaço por excelência da diplomacia multilateral, essas cúpulas ganharam uma dimensão simbólica de afirmação dos novos paradigmas de inserção internacional do Brasil, não mais baseado no distanciamento e na ilusão de autarquia, mas combinando criativamente universalismo, realismo crítico, moderação construtiva e disposição para participação ativa, engajada e propositiva nos grandes temas globais, especialmente na Organização das Nações Unidas (ONU).


Diante de um quadro internacional de polaridades indefinidas dos anos 90 no qual a América do Sul tornou-se o foco prioritário das atenções brasileiras, as cúpulas de Chefes de Estado ganharam também relevância para a diplomacia regional, com os mais diversos nomes, propósitos e formatos, mas igualmente prestigiadas pela diplomacia brasileira, a saber: Cúpula dos Chefes de Estado do Mercosul, Cúpula de Chefes de Estado da América do Sul (União Sul-Americana), Cúpula das Américas, Cúpula Ibero-Americana, Grupo do Rio, Cúpula América do Sul-Países Árabes, Cúpula América do Sul-África, Cúpula Mercosul-União Européia, Cúpula da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.


Como se sabe, a condução da política exterior no Brasil é uma prerrogativa e uma responsabilidade do Presidente da República, auxiliado pelo Ministro das Relações Exteriores. A diplomacia presidencial tem ganhado importância na agenda internacional brasileira nas últimas décadas – com os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva -, sendo o Chefe de Estado requisitado a participar de cada vez mais de atividades de representação (cerimônias, viagens, encontros, visitas oficiais) e, não raro, a negociar diretamente com seus pares.


Muitas vezes não há uma compreensão clara acerca dos resultados práticos das cúpulas. Sabe-se que nesses encontros há muito mais do que as fotografias oficiais, os discursos, os banquetes e os apertos de mão. As cimeiras envolvem intensa movimentação diplomática e abrem importantes canais de interlocução política. Incentivam a interação, o diálogo franco e às vezes até a negociação direta entre os líderes dos Estados. Estão menos sujeitas às regras e aos formalismos existentes no campo das relações internacionais e modernizaram surpreendentemente o modo como se conduz a política externa dos Estados.


A proliferação das cúpulas internacionais nos últimos anos sinaliza um simbólico reconhecimento da existência de uma comunidade internacional com interesses e objetivos comuns que se sobrepõem aos nacionais. Às vezes apresentam resultados imediatos, a curto-prazo. Entretanto, é bom que se diga, o tempo da diplomacia, especialmente da diplomacia multilateral, requer uma perspectiva temporal mais dilatada, fundamental para que se processem os entendimentos entre os atores centrais das relações internacionais – os Estados – e para que se internalizem no plano doméstico as decisões acordadas comumente. O Brasil tem sabido dar o devido conteúdo a esse tipo de formato e abrir-se à discussão democrática e transparente de idéias e posições.


Enrique Carlos Natalino

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Brasil logístico


A atuação de empresas brasileiras no exterior tem revelado o crescente grau de internacionalização da economia, possível graças à edificação de um quadro político-institucional maduro e do aggiornamento do projeto de desenvolvimento. A atuação do setor privado brasileiro fora das fronteiras nacionais começou a se tornar uma realidade há mais de trinta anos, com os contratos firmados entre países da África, Oriente Médio e América Central com grandes empreiteiras brasileiras.


A abertura econômica dos anos 90 produziu indubitável melhoria da competitividade sistêmica do sistema produtivo nacional, ampliando os horizontes de atuação dos setores com os quais o país já despontava internacionalmente. A experiência adquirida desde então tem sido uma credencial valiosa que permitiu a rápida percepção por parte dos empresários do potencial inexplorado dos mercados dos países vizinhos, ignorados até muito pouco tempo. As empresas que se internacionalizaram passaram a diversificar suas estratégias de investimento, produção e expansão, conjugando-se com as prioridades da política externa do Brasil no subcontinente sul-americano. Camargo Correia, Odebrecht e Mendes Júnior (construção civil), Vale do Rio Doce (mineração), Petrobrás (petróleo e gás) e outras empresas nacionais estão presentes em praticamente todos os países sul-americanos.


A América do Sul é o foco prioritário de expansão dos interesses comerciais e empresariais brasileiros no plano global. É a plataforma de inserção estratégica de um país continental que procura obstinadamente adensar os laços econômicos e políticos com o mundo para ampliar os horizontes de seus interesses nacionais. A criação do Mercosul (1991) foi um grande marco nessa direção, integrando os principais centros de desenvolvimento do Cone Sul, multiplicando o comércio intra-regional e abrindo às empresas brasileiras oportunidades de ganho de escala com o acesso aos mercados argentino, uruguaio e paraguaio.


A circunstância geográfica sul-americana ganhou maior substância econômica, política e estratégica na política externa brasileira com a escolha da expansão da infra-estrutura como opção central de ação, acertada na I Cúpula de Chefes de Estado da América do Sul, em Brasília (2000). O Plano de Ação para a Integração da Infra-estrutura Regional da América do Sul (IIRSA), um dos frutos daquele encontro, é de enorme interesse para o Brasil. Permitirá dinamizar as regiões oeste e norte do país, grandes vazios populacionais e economicamente mais atrasadas, beneficiando as empresas dos setores de agroindústria e mineração. Padronizará normas técnicas e sistemas regulatórios, facilitando o planejamento das empresas. Empresas brasileiras poderão participar da execução de obras importantes e custosas, como ocorreu na recente construção de uma rodovia de acesso ao estado do Acre no território do Peru e de uma grande ponte sobre o rio Orinoco, na Venezuela.


Essa ambiciosa interligação física dos sistemas rodoviários, ferroviários, fluviais, aéreos, energéticos e de comunicações permitirá harmonizar o desenvolvimento econômico regional, melhorar a competitividade internacional das empresas brasileiras, com o acesso direto aos mercados da Ásia via Oceano Pacífico e aperfeiçoar os mecanismos de interação entre o que Amado Luiz Cervo denominou “Estado logístico” e o setor privado. A questão da integração energética é um desafio à parte, razão pela qual o governo se empenha em manter um ambiente de estabilidade e confiança nas relações entre o Brasil e seus vizinhos, especialmente a Bolívia, exportadora de gás natural para o complexo urbano-industrial brasileiro.


O Estado boliviano criou uma controvérsia recente com o Brasil ao nacionalizar os recursos minerais, obrigando a Petrobrás a vender suas refinarias no país. Apesar da instabilidade política, ao Brasil interessa manter o abastecimento de gás natural via gasoduto Bolívia-Brasil até que a auto-suficiência seja alcançada nos próximos anos. Ao mesmo tempo, as empresas brasileiras que têm uma carteira de bilhões de dólares em investimentos na Venezuela dependem de um quadro econômico, político e jurídico estável para o sucesso de seus negócios.


O ambiente político e econômico da América do Sul, como se percebe, há muito deixou de ser uma realidade distante para o Brasil e suas empresas, constituindo hodiernamente um dos focos centrais das preocupações de planejamento e ação do Estado brasileiro e do setor privado mais adiantado.