O Japão vive um processo de ajuste glacial, porém hercúleo, de suas prioridades nacionais às redefinições de poder na ordem mundial. Depois de décadas funcionando sem parar, a máquina de crescimento econômico japonesa do pós-guerra foi quase destroçada nos anos 90. A dívida pública cresceu, o dinheiro fácil para as grandes obras secou, a transferência de renda diminuiu, a população envelheceu muito rápido e prefere poupar a consumir. O poder dos burocratas limita o raio de ação do governo e as reformas avançam em ritmo lento. A queda prematura do gabinete do primeiro-ministro Shinzo Abe no ano passado parece refletir esse ambiente de resistência a mudanças, especialmente no que toca à inserção do Japão na nova configuração geopolítica da Ásia.
A postura pacifista e civilista do Estado japonês e o seu abrigo sob a proteção militar dos Estados Unidos o amarram numa delicada teia de limitações estratégicas e políticas que restringem o raio de ação em política exterior e defesa nacional. Apesar das amarras, foi incentivado pelos Estados Unidos a rearmar-se a partir da Guerra da Coréia para fortalecer sua capacidade de defesa. Desde então leva adiante uma política de auto-suficiência em armamentos convencionais, fabricando desde munições e armas de fogo até navios e aviões. Os conglomerados japoneses hoje exportam esses itens para o mundo todo. Com o fim da Guerra Fria, aumentou o perímetro geográfico dentro do qual os militares norte-americanos vêm passando ao Japão responsabilidades por operações de defesa.
Para o cientista político Takashi Inoguchi, o Japão é uma potência sustentadora: ajuda no desenvolvimento da economia global e não nega ajuda quando é chamado. Essa mentalidade moldou a Doutrina Yoshida, cujo auge foi nos anos 70, segundo a qual o Japão deveria aproveitar-se do pacifismo reinante para fortalecer a base de sua economia e desenvolver amplas iniciativas de cooperação internacional, assistência ao desenvolvimento e transferência de tecnologias, acumulando prestígio e poder em toda parte. Uma abrangente, flexível e multidimensional estratégia foi conduzida pelo Ministério do Comércio Internacional e da Indústria (MITI), baseada na orientação para as exportações e no desenvolvimento de tecnologias de ponta, consolidando o país no segundo posto entre as maiores economias mundiais. Assim os japoneses construíram uma rede global de fornecimento de recursos naturais indispensável ao seu complexo comercial-industrial e dinamizaram o progresso econômico da orla asiática do Pacífico.
O desgaste mundial da hegemonia americana, a ascensão da China como forte competidora por insumos naturais, os constantes atritos com Pequim referentes a cicatrizes históricas mal curadas, o direcionamento estratégico de Moscou para a Ásia do Leste, a transferência do grosso da marinha russa do mar Báltico e do mar Negro para o Pacífico e a aventura nuclear da Coréia do Norte, detentora de mísseis de médio e longo alcance, são dados que alimentam o desejo de Tóquio de rever sua política de defesa. O programa de governo do premiê Shinzo Abe contemplava a revisão de alguns dispositivos constitucionais da Carta de 1946 imposta pelos EUA, objetivando eliminar os entraves que constrangiam a defesa nacional. O serviço militar é a última opção de qualquer jovem japonês. Sem treinamento adequado ou experiência em campo de batalha, as forças armadas do Japão sozinhas são inaptas como instrumento de dissuasão estratégica regional, apesar das bilionárias cifras gastas com armamento convencional e da participação eventual de pequenos destacamentos nipônicos nas missões de pacificação da ONU. A Agência Japonesa de Defesa, sem status de ministério, é o órgão governamental que cuida dos assuntos militares, criticado por sua ineficácia em coordenar as forças de terra, mar e ar.
Desprovido de capacidade de golpeamento estratégico num cenário onde existem três potências nucleares (Rússia, China e Coréia do Norte), o Japão continua lastreado ao guarda-chuva nuclear de Washington, contando apenas com a dimensão de sua economia e seu domínio tecnológico como trunfos de barganha diplomática no plano mundial, deixando o país numa encruzilhada: um gigante econômico com soberania limitada e à mercê da espada cada vez mais afiada de seus poderosos vizinhos.
Desprovido de capacidade de golpeamento estratégico num cenário onde existem três potências nucleares (Rússia, China e Coréia do Norte), o Japão continua lastreado ao guarda-chuva nuclear de Washington, contando apenas com a dimensão de sua economia e seu domínio tecnológico como trunfos de barganha diplomática no plano mundial, deixando o país numa encruzilhada: um gigante econômico com soberania limitada e à mercê da espada cada vez mais afiada de seus poderosos vizinhos.
Enrique Carlos Natalino
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