sexta-feira, 4 de julho de 2008

Diante de Escolhas


A expectativa de que o ocaso da liderança de Fidel Castro resultaria numa explosão de demonstrações e revoltas coletivas contra o regime autoritário cubano não se confirmaram. A vida cotidiana na ilha de 11 milhões de habitantes prossegue normalmente e o novo governo vem implementando gradualmente mudanças na economia. A transição controlada afastou qualquer ingerência externa e colocou a pá de cal na velha pretensão norte-americana de influenciar no processo de mudança política.


Os ventos em Cuba estão mudando. A grande questão é descobrir qual é o caminho que a nova liderança pretende trilhar para tirar a economia do atraso, modernizar a infra-estrutura, melhorar os salários irrisórios, avançar nos direitos humanos e dar chance à democracia. No campo das relações internacionais, haverá alguma esperança de uma aproximação com os Estados Unidos após as eleições de novembro?


No que diz respeito ao processo de transição, China, Rússia e Leste Europeu são os três principais modelos que os analistas acreditam poderão moldar o processo de transição em Cuba a partir do desaparecimento da figura de seu principal ícone político. Abertura econômica e reforço do controle político, no primeiro caso; fachada democrática com controle da economia e da política, no segundo; abertura econômica e política, no terceiro.


Cuba é um país funcional e complexo. As instituições erguidas pela Revolução de 1959 deitaram raízes profundas e o governo se sustenta sobre bases sólidas. A rede de proteção social é a maior fonte de legitimidade do regime e assegura uma sociedade bem letrada, uma força de trabalho qualificada e uma burocracia bem treinada. Considerando que a transmissão do poder a uma nova geração vem sendo tratada há anos como garantia da estabilidade e da permanência do Partido Comunista Cubano (PCC) no comando do país, a curto-prazo não são esperadas mudanças políticas que comprometam a hegemonia da elite dirigente. As lições aprendidas com o estilhaçamento da União Soviética após a Perestroika e a Glasnost mostraram aos comunistas cubanos que soltar todas as rédeas e amarras de uma só vez não é o caminho mais indicado.


Se o acelerado projeto mudancista gorbatcheviano parece não ter vez em Cuba, o pragmático Raúl Castro parece estar seguindo a cartilha de Deng Xiaoping na complexa engenharia de transição cubana: soberania nacional, continuidade do regime, reformas graduais e inserção controlada na economia mundial parecem ser pontos com os quais não irá transigir. Com ou sem Fidel Castro, Cuba aparentemente continuará com graves restrições aos direitos civis e políticos e com entraves insuportáveis à constituição de partidos políticos de oposição.


Outro ponto ainda indefinido é a aproximação com os Estados Unidos. Os norte-americanos despenderam bilhões de dólares para tentar minar o castrismo, mas foram enormemente ineficazes e continuam obsoletos porque insistem no irrealismo. Ao invés de enfraquecer, o embargo econômico imposto a Cuba justifica ainda mais o estrito controle do governo sobre a população, reduz o ritmo da liberalização, sufoca as tentativas de reformas e torna a rebeldia antiamericana um componente da unidade nacional.


A reconciliação com o poderoso vizinho do norte é um forte catalisador da mudança de ventos em Havana e pode moldar um modelo de transição mais focado tanto em abertura econômica quanto em descompressão política. Deixar de ser a última hipoteca da Guerra Fria e integrar-se ao mundo é certamente a grande causa que moverá o povo cubano na construção de seu futuro. Esse passo acabaria com o verdadeiro estado de sítio que há muito impera na ilha, permitindo a administração bilateral das crises humanitárias, a promoção da confiança mútua, o fim das sanções econômicas e o reatamento gradual das relações diplomáticas. Parcerias nos setores de turismo, cultura, educação e energia podem ser um bom começo.


Espera-se que o novo presidente norte-americano a comandar a Casa Branca a partir de 2009 tenha sensibilidade e condições efetivas para agir dentro desses marcos e promover uma aproximação pragmática tal qual Nixon e Kissinger ousaram com os comunistas chineses em 1972, abrindo caminho para que a diplomacia e os interesses nacionais de ambos os lados prevaleçam sobre as ideologias e os episódios do passado.


Enrique Carlos Natalino

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