O príncipe da Igreja Armand Jean du Plessis, conhecido como Cardeal de Richelieu, introduziu a razão de Estado na diplomacia européia do século XVII. Nicolas Sarkozy, sucessor de Jacques Chirac na presidência da França, é o mais novo adepto da velha arte francesa de procurar equilibrar valores e interesses na condução dos negócios externos, conduta que teve no presidente Charles De Gaulle o maior dos expoentes. Insaciável e altivo como o velho general, voluntarista como Valéry Giscard d´Estaing, pragmático como François Mitterrand, eloqüente e sensível como o ex-presidente que saiu, o novo ocupante do Palais de Élysée pelos próximos cinco anos quer ressuscitar a Europa, acabar com a guerrilha de Paris contra Washington e re-inserir a França no centro dos grandes debates mundiais.
Nicolas Sarkozy prometeu defender a identidade nacional e reformar a França. As expectativas geradas nos primeiros doze meses de que seu governo conseguiria substituir a inércia pelo ativismo e apresentaria novas idéias para tirar uma das maiores economias do mundo da estagnação são enormes. Investimento em ciência e tecnologia, redução dos custos trabalhistas, reforma da imigração, encolhimento da burocracia estatal, relançamento da Europa e defesa do meio ambiente são os maiores desafios que se apresentaram no primeiro ano de governo. Sarkozy não perdeu tempo e expôs um amplo desfile de iniciativas e posicionamentos.
O estilo do “hyperprésident” de conduzir a França como ator internacional privilegiado tem chamado a atenção pela combinação de um pragmatismo de valores com uma diplomacia direta, com rosto humano, sem apegos às filigranas e protocolos de chancelaria. Sua política exterior já ganhou contornos definidos. A hábil aproximação de Sarkozy com Washington parece ser a maior ruptura com a política externa de Chirac. Na medida em que confirma a aliança transatlântica, sem abrir mão da liberdade de palavra e decisão, Paris credencia-se como ator confiável perante os americanos e tem mais chances de ser ouvida nos assuntos mais delicados e espinhosos para a Casa Branca, como o combate ao terrorismo, o Irã, o Iraque, Israel-Palestina e aquecimento global. Sarkozy aposta suas fichas em duas armas: diálogo e na negociação direta. Conseguiu a libertação de enfermeiras búlgaras e de um médico palestino detidos na Líbia há oito anos em tempo recorde, dando em troca tecnologia nuclear civil ao coronel Kadafi e a promessa de reinserção plena do país africano na comunidade internacional. A França quer fazer da Líbia a passagem natural de sua entrada na África em busca de mercados.
O exercício da realpolitik parece ter dado certo nesse caso. Sarkozy quer ir além e convencer seus pares europeus a aplicar a mesma fórmula para evitar a nuclearização militar do Irã, retomar as negociações para a criação de um Estado palestino viável e que dê garantias de segurança a Israel, estabilizar o Líbano e moderar a Síria. O novo governo francês não quer criar rivalidade e atrito com os Estados Unidos, mas fazer valer sua influência para injetar oxigênio numa agenda política paralisada. A oposição e parte da mídia têm recebido com desconfiança essa mudança de rumos, evocando o velho sentimento antiamericanista reinante no país no último meio século. Mas Sarkozy até agora tem conseguido angariar amplo apoio interno para implementar suas políticas. Numa jogada de mestre, entregou a políticos de esquerda os principais braços da diplomacia francesa. Bernard Kouchner é ministro das relações exteriores (Quai d´Orsay); Jean-Pierre Jouyet é o encarregado de assuntos europeus e a Jean-Marie Bockel cabe a coordenação da cooperação e relações com o mundo francófono. E, num gesto surpreendente, indicou para a chefia do Fundo Monetário Internacional o nome de Dominique Strauss-Kahn, estrela de primeira grandeza socialista.
Acenando para a África com a promessa de uma diplomacia de solidariedade concreta, o presidente propôs uma inédita iniciativa de união dos povos do Mediterrâneo em torno do desenvolvimento econômico-social, do diálogo de culturas, da segurança, da energia e do meio ambiente. Os alvos são claro: combater a imigração ilegal e o extremismo islâmico. Num paralelo com o sonho de Jean Monnet de construir a comunidade européia, Sarkozy manifestou interesse em desenvolver este projeto ambicioso, mas ainda sem formato claro, e projetar ainda mais a influência política da Europa no restante do mundo. Não será uma tarefa de fácil execução. Há obstáculos imensos a dificultar a empreitada: disparidade econômico-social entre os países, diferença de regimes políticos, rivalidades geopolíticas e multiplicidade étnico-cultural. É esperar para ver.
A França assumiu há uma semana a presidência rotativa da União Européia. Europeísta, Sarkozy costurou ao longo dos últimos meses uma reaproximação com a Alemanha de Merkel e com o Reino Unido de Brown em torno de um novo tratado para aperfeiçoar os mecanismos decisórios, fortalecer institucionalmente e avançar no processo de integração do bloco europeu, superando a derrota do Tratado Constitucional nos plebiscitos de 2005 na França e Holanda. Cobrou dos demais líderes uma maior consistência no debate sobre uma política externa e de defesa comuns. Seu grande teste em política internacional certamente será ajudar a encontrar uma solução possível para o impasse no processo de ratificação do Tratado de Lisboa após a derrota da proposta no referendo irlandês de junho de 2008. A Europa está paralisada. Alguém precisa destravá-la.
O presidente Nicolas Sarkozy tem fome de ação e quer jogar em todos os tabuleiros de xadrez da política internacional. Sua política externa está ficando mais clara e suas propostas vão sendo postas na mesa. Resta saber se terá força política suficiente para manter as suas promessas. Até aqui sua velocidade tem sido alucinante e quase provoca vertigens. Resta saber se a queda vertiginosa de sua popularidade nos últimos meses provocará um sério derrapamento.
Enrique Carlos Natalino
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