Apagão: noite de união e romantismo às antigas
Dez anos depois do histórico blecaute de 1999 e oito anos depois do Apagão do final do governo do presidente Fernando Henrique, o fantasma da escurdão voltou. Felizmente o blecaute em Belo Horizonte foi apenas parcial: atingiu só 20% da cidade. A Pampulha não apagou, mas piscou. Os celulares, a internet e rede telefônica funcionaram de forma precária até a meia-noite. Imagina-se que Furnas, Três Marias e as outras 67 usinas hidrelétricas da CEMIG não desligaram.
Qual seria a cara de felicidade do ex-presidente e ex-governador Itamar Franco ao assistir a tudo isso lá em Juiz de Fora? Principal defensor de uma CEMIG forte, estatal e eficiente para reduzir a nossa dependência externa de fornecimento, deve ter pensado: " - Estão vendo como eu tinha razão quando me entrincheirei no Palácio da Liberdade? Evitei que a CEMIG e Furnas fossem privatizadas. E depois ainda me chamam de louco... ".
Aécio Neves também devia estar risonho ao assitir, do alto de seu belvedere particular no Palácio das Mangabeiras, apenas 20% da cidade ficar às escuras: "- Minas dá provas de que tem a melhor energia do planeta: compra distribuidoras fora do estado, abastece Brasília, abre capital na bolsa de NY, faz política social iluminando campos de várzea no interior e ainda garante a segurança energética dos mineiros. Trabalhamos em silêncio com nossos gestores e podemos aspirar novamente à presidência da República...".
Como a capital de Minas, parece que a capital do país também se manteve às claras. Um ponto iluminado no meio do cerrado, como sempre foi desde a inauguração, Brasília foi preservada do blecaute, de modo que nossos gestores federais tiveram todas as condições de balizar as decisões de lá, devidamente servidos de infra-estrutura nos escritórios iluminados do Mall da Esplanada dos Ministérios. Se a capital fosse no Rio, provavelmente a reunião de emergência seria realizada à luz das velas do mesmo candelabro que iluminou a primeira reunião de Arthur Bernardes com seus ministros na Sala de Despachos do Palácio do Catete.
A despeito disso, constatou-se, na noite do dia 10 e início da madrugada do dia 11, que nenhum dos sites governamentais - Ministério das Minas e Energia (MME), Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Itaipu Binacional, Presidência da República, Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) ou qualquer outro instrumento de governo eletrônico - trouxe, quatro horas depois do blecaute iniciado por volta das 22h15, uma linha sequer para explicar aquele que foi o maior apagão da História do Brasil, considerando-se a duração e a abrangência de população, território e PIB afetados.
Segunda hidrelétrica do mundo, Itaipu desligou totalmente pela primeira vez
Uma capital no centro de um país continental e longe dos centros econômicos vitais, se não serve de cabine de comando segura e eficaz para assegurar autonomia de ação governamental em situações de emergência como as de ontem à noite, de que serve? E por que desprezou-se uma ferramenta tão instantânea e eficiente como a internet? Quando se trata de propagandear ufanismos e cantar glórias, há muita eficiência no uso dos meios de comunicação. Em situações de crise em que todos aguardam ansiosos o pronunciamento das autoridades políticas, administrativas e reguladoras competentes, impera a confusão, a falta de informações, ou o silêncio constrangedor.
A gigante Itaipu parou pela primeira vez desde que entrou em funcionamento, há vinte e cinco anos. Uma hidrelétrica tão estratégica, quando pára, deixa 80% do PIB brasileiro às escuras. O que aconteceu? O titular da pasta das Minas e Energia não soube dizer ao certo. Nem o chefe de governo, que ainda não se pronunciou. Como de costume, o Poder Executivo dará um monte de explicações operacionais travestidas de tecnicidade ou tentará transferir a culpa para seu antecessor, as privatizações, o aquecimento global, São Pedro ou o presidente do Paraguai. Enquanto isso, o Brasil ficou quatro horas mergulhado na escuridão e no caos.
Nos Estados Unidos, quando estas coisas acontecem, cobranças são feitas, investigações ocorrem, demissões são decidadas e cabeças rolam. Aqui, como de costume, há muito falatório inicial e investigações que demoram a começar. Quando terminam, todos já esqueceram, como no caso do acidente com o avião de uma companhia aérea conhecida em julho de 2007. No fim, demitem-se um ou dois funcionários que são responsabilizados por terem apertado o botão errado e preserva-se a alta direção de estatais ou dos ministérios ocupados por filiados dos partidos aliados do governo. Autoridades irresponsáveis que chegaram lá não graças ao conhecimento técnico que têm sobre energia, mas às transações que lhes garantiram cargos em troca da ampliação da base política.
Incerteza, insegurança, desconfiança e vulnerabilidade são sensações inevitáveis que assaltam os cidadãos ao assistirem o interesse nacional ser tratado de forma ingênua. O imposto instituído em 2001, chamado de seguro contra o apagão, deveria ter sido usado in totum para fortalecer a segurança do sistema elétrico nacional, ampliar os investimentos em geração e transmissão, aperfeiçoar a qualidade da regulação e garantir que coisas como essa não acontecessem mais. E se acontecessem, deveriam ocorrer parcialmente, sem afetar o centro vital do país como um todo, com a volta rápida à normalidade.
Mas o dinheiro compulsoriamente extraído de todos os usuários do serviço público ajudou a engrossar não os investimentos, mas o superávit primário e o inchasso dos gastos de custeio da União. É a principal herança da superministra quando era supergestora das Minas e Energia: conseguiu a proeza de fazer o país crescer 5% ao ano sem fazer, em tempo hábil, investimentos em energia. Um verdadeiro milagre digno de reconhecimento... Nuncaantesnestepaíz...
Apagão energético, político e administrativo.
Há poucos meses o Brasil teve de engolir a "negociação" na qual aquiesceu às exigências do Paraguai sobre a energia produzida na hidrelétrica de Itaipu, sem exigir contrapartidas. Para aumentar as receitas paraguais com a venda da cota de energia que não usa, o governo brasileiro concordou em triplicar o repaasses ao vizinho. Consequentemente, repassará os custos em futuros aumento das contas de luz. Da mesma maneira, três anos atrás, a tungada da Bolívia contra as refinarias de gás da Petrobrás, ao invés de protestos, mereceu aplausos e apoios do governo brasileiro.
Em suma, tem-se um novo dado para comparar a presidência atual com a anterior: o apagão de ontem foi 400% maior do que o de 1999 - o breu total. Se por um lado o blecaute, ou "microproblema", como o chamou o ministro Tarso Genro, derrubou a rede energética de metade do Brasil, por outro trouxe inegável contribuição para unir casais e famílias em torno de românticas luzes de velas.
Enrique Carlos Natalino
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