1. Introdução
Durante a vigência do pensamento econômico liberal, até a década de 1930, os gastos realizados pelo Estado eram tidos como necessários, porém improdutivos, o que justificativa uma intervenção mínima do governo na economia para evitar maiores distorções na alocação de recursos da sociedade. Somente com o aparecimento das formulações keynesianas, na esteira da crise de 1929, tais idéias ortodoxas seriam veementemente combatidas no pensamento econômico.
Keynes mostrou que o problema da insuficiência de demanda agregada prevalecente durante uma crise sistêmica do capitalismo somente poderia ser atenuada com o aumento da despesa pública, pois os mecanismos estabilizadores automáticos e os remédios neoclássicos convencionais, ao invés de retirarem a economia da crise e assegurarem renda e pleno emprego, contribuíam para deprimir ainda mais a demanda e a renda agregada. Nesse sentido, o papel do multiplicador do investimento era fundamental para a estabilização global do sistema.
A política fiscal “poderia contribuir, de acordo com essa perspectiva, por meio de políticas redistributivas, para fortalecer as condições necessárias para a revitalização das forças da demanda agregada e, portanto, para a expansão da renda e do emprego” (Oliveira, 2009: p. 120). Legitimou-se, assim, a participação do Estado no sistema social, tanto para salvar o sistema quanto para prover melhor distribuição de renda, tornando-se o gasto público um elemento privilegiado de política econômica. A politização das finanças públicas implicou no redesenho de sua missão precípua, que na visão keynesiana passou a ser não só expandir ao máximo a produção, como também reduzir as desigualdades da renda social (Dalton, 1970 apud Oliveira, 2009).
Na década de 1970, entretanto, iniciou-se uma poderosa reinvestida do pensamento econômico liberal contra o Estado, centrando fogo nas perturbações, distorções e instabilidades causadas pela política fiscal keynesiana, sobretudo no que diz respeito aos seus efeitos inflacionários. Mas ao contrário do que se pode pensar, nas décadas de vigência do neoliberalismo e de sua pregação anti-Estado, verificou-se uma ampliação dos gastos públicos e da arrecadação dos governos.
A determinação da estrutura do gasto público é questão altamente subjetiva, pois depende diretamente da configuração política, econômica e social de um país e dos diversos atores que disputam e negociam seus interesses. Na verdade, o espaço orçamentário, como Oliveira comentou no capítulo antecedente, constitui, por excelência, um locus essencialmente político onde se trava o constante entrechoque entre grupos detentores do poder e entre idéias, convicções e interesses em jogo.
- Crescimento e composição dos gastos públicos: explicações teóricas
Como explicar o crescimento e determinar as forças que influenciam a composição dos gastos públicos na era keynesiana? Diversas teorias se propuseram a explicar essas duas questões. As explicações empíricas de Wagner, Peacock e Wiseman demonstram esse crescimento e apontam suas causas, mas sem nenhuma preocupação com as restrições orçamentárias e com a identificação das forças que se interpenetram no interior do Estado e o influenciam no direcionamento do gasto público. Assim, à medida que o país se desenvolve economicamente e cresce o nível de renda da população, há uma conseqüente ampliação do gasto público. O crescimento da despesa, inicialmente justificado em razões de natureza emergencial, para arcar com crises, guerras e calamidades, seria, num momento posterior, mantido, ampliado e legitimado pela sociedade.
Pela teoria tradicional das finanças públicas, fundada na reunião das contribuições clássicas, neoclássicas e keynesianas, a explicação se baseia na hipótese das “falhas” de mercado. Ela sugere normas adequadas e define quais funções deveriam ser desempenhadas pelo Estado (alocativa, distributiva e estabilizadora) para a garantia da eficiência do sistema. Já uma terceira explicação, a neoliberal, centrada na Teoria da Escolha Pública, procura entender a disputa que se trava dentro do orçamento governamental entre indivíduos e grupos para o direcionamento do gasto numa ou noutra direção, bem como as conseqüências desses conflitos de interesses entre os agentes para a estabilidade financeira.
Segundo Oliveira, além de conceber um Estado meramente passivo, sem autonomia, tal abordagem é de difícil formatação e nunca foi adequadamente comprovada. Na visão de uma quarta escola, a do neoinstitucionalismo, por outro lado, reconhece-se a importância do Estado para a garantia da sobrevivência e reprodução do sistema, desde que enquadrado dentro dos limites dos compromissos com a sustentabilidade da dívida. Por fim, a escola marxista é uma das que melhor fornece elementos para a compreensão do fenômeno do gasto público, adentrando num tema fulcral ao demonstrar a necessidade inafastável de o Estado assegurar lucratividade e legitimidade para o funcionamento do sistema capitalista.
Segundo Oliveira, nas diversas etapas históricas do capitalismo no século XX, o papel do gasto público oscilou ao sabor dos ventos políticos, econômicos e sociais, seja atenuando os efeitos da Grande Depressão dos anos 1930, seja guarnecendo a Europa da influência do comunismo no pós-guerra ou, mais recentemente, garantindo um espaço de valorização e lucratividade do capital financeiro no interior dos orçamentos públicos. Dessa forma, a estrutura ideal de despesas públicas postulada pela teoria das finanças públicas
“deveria refletir o compromisso com maior produção e melhor distribuição, não necessariamente correspondente à que se observa na prática orçamentária do Estado, já que esta sofre forte influência dos interesses das classes e frações de classes que influenciam e governam suas decisões” (Oliveira, 2009: p. 137).
- Os gastos públicos no Brasil
No orçamento brasileiro, as despesas públicas aparecem classificadas segundo três critérios distintos: i) a classificação institucional ou departamental; ii) a funcional programática; iii) a classificação por categoriais econômicas, por elementos e subelementos.
A classificação institucional é o mais antigo meio de classificação de despesa e o seu principal objetivo é o de evidenciar as unidades administrativas responsáveis pela sua execução. Embora seja útil para definir os órgãos e agentes governamentais responsáveis, não possibilita uma visão clara sobre os objetivos e gastos do governo e muito menos de seus impactos na vida econômica e social como um todo.
A classificação funcional-programática é essencial na atividade de planejamento, estruturando-se em funções e subfunções. Representou um avanço em relação à classificação anterior e foi sendo continuamente aperfeiçoada, até a elevação das funções para o número de 28, incluindo a categoria “operações especiais” - o que melhorou muito a leitura das áreas beneficiadas pelos programas sociais. Segundo Oliveira, essa categoria permite analisar e avaliar melhor as políticas de governo.
A classificação das despesas por categoriais econômicas ganhou importância após o advento das idéias keynesianas sobre o papel do Estado no domínio econômico, pois fornece informações indispensáveis para calcular a participação do governo na geração da renda nacional, através do investimento e consumo. Tal instrumento permite analisar as despesas públicas de acordo com seu grau de rigidez, determinar as vulnerabilidades financeiras governamentais, identificar o peso de cada elemento no total global da despesa e proceder aos ajustes necessários em situações que exigem rápidas modificações no orçamento.
Nessa classificação de acordo com o critério econômico, estabeleceram-se duas categoriais – as despesas correntes e as despesas de capital – e cinco subcategoriais a ela vinculadas – as despesas de custeio e as transferências correntes, no caso da primeira, e os investimentos, as inversões financeiras e as transferências de capital.
Os gastos de custeio garantem o funcionamento da máquina pública e da prestação de serviços públicos, compondo-se de gastos com pessoal (ativos e inativos) e demais despesas, especialmente material de consumo. Através deles é que pode ser mensurada a parcela do governo no consumo global da economia. As transferências correntes se vinculam ao repasse de recursos entre as esferas governamentais – constitucionais ou voluntárias. As despesas com investimentos relacionam-se à realização de obras pela administração pública, representando a contribuição do governo à formação bruta de capital fixo da economia. As inversões financeiras não representam a criação de riqueza nova e se reportam à aquisição de imóveis ou bens de capital já em utilização, bem como à aquisição de títulos representativos de capital de empresas já constituídas ou à constituição ou aumento de capital de entidades com fins comerciais ou financeiros. As transferências de capital referem-se ao repasse de recursos entre as esferas governamentais para a realização de investimentos.
A classificação das despesas por elementos complementa a classificação por categoriais econômicas, ampliando o nível de desagregação de seus componentes. Sua vantagem é um melhor controle contábil de gastos e o aperfeiçoamento dos indicadores das finanças governamentais.
Os primeiros dados disponíveis sobre os gastos públicos brasileiros remontam ao ano de 1947, ano que iniciou a contagem das contas nacionais. Até 1930, os gastos efetivados pelas três esferas de governo do Brasil não chegaram a atingir 20% do PIB, fato consonante com o pensamento liberal prevalecente. Segundo Oliveira,
“frágil fiscal e financeiramente, o Estado que ainda engatinhava no processo de construção de suas bases materiais, financeiras e institucionais é prisioneiro das oligarquias e é, sob o comando delas, que formula e implementa políticas intervencionistas nas áreas de seu interesse – política cambial, de defesa da exportação do café, etc” (2009: p. 147).
A intervenção estatal no processo de acumulação capitalista no Brasil ao longo do século XX, dada a debilidade das forças econômicas e produtivas, também tolheu a construção de Estado de Bem Estar Social nos moldes dos países europeus no Brasil, apesar dos grandes avanços sociais garantidos pela tutela governamental. Para Oliveira, a ênfase excessiva no setor produtivo, em lugar das áreas sociais, reforçou e ampliou essas desigualdades sociais, regionais e inter-regionais.
A partir de 1930, o Estado brasileiro fortaleceu suas bases materiais e tornou-se amplamente intervencionista, colocando-se à frente do processo de desenvolvimento nacional. A economia agroexportadora perde cada vez mais espaço para a industrialização, acelerada a partir dos anos
Após o golpe de 1964 e as diversas reformas empreendidas no Estado, houve o fortalecimento dos mecanismos de financiamento não-inflacionário do governo. Entre 1964 e 1970 houve um crescimento significativo dos gastos públicos, de 20% para 25% do PIB, elevação relacionada com o envolvimento direto do Estado na função de acumulação de capital. Na segunda metade da década de 1970, contudo, começaram a se evidenciar desequilíbrios mais fortes nas contas públicas. O II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) do governo Geisel ampliou o endividamento do país no exterior. O malabarismo e o irrealismo orçamentários prevalecentes no período ajudaram a camuflar a crescente deterioração financeira que se avizinhava e que iria explodir com toda intensidade na década de 1980.
Com a retomada da democracia (1985), apesar da permanência do quadro de instabilidade econômica, o governo lançou-se numa temerosa expansão dos gastos públicos para fazer frente à explosão das demandas sociais reprimidas durante a ditadura, o que agravou a hiperinflação e evidenciou o ocaso do Estado desenvolvimentista. A década de 1990 assiste à introdução do modelo neoliberal e ao enquadramento do Estado num forte processo de reestruturação e ajuste, incluindo a redução do seu papel na economia e o deslocamento de grande parcela de recursos para o pagamento de juros da dívida pública. Os gastos públicos, entretanto, não reverteram sua trajetória de crescimento. Segundo Oliveira, adoção de um padrão de ajuste segundo as exigências de responsabilidade fiscal e sustentabilidade da dívida pública cria para o governo uma armadilha:
“apoiado predominantemente no aumento da carga tributária, visando garantir as receitas adicionais para a geração de superávits primários, indispensáveis para manter a relação dívida/PIB sob controle, este aumento termina garantindo, também, a elevação dos gastos, por contarem os impostos e, principalmente as contribuições sociais, com normas legais e constitucionais que garantem boa parte de sua arrecadação (cerca de 80%) para determinados beneficiários (estados e municípios) e para o financiamento de determinadas áreas sociais” (2009: p. 152).
Para contornar tal situação, há inúmeras tentativas de desvinculação de parte das receitas de despesas obrigatórias, o que se por um lado permite possibilita o ajuste fiscal, por outro poderá fragilizar seriamente as políticas sociais e a coesão do sistema. No período pós-1994 verifica-se uma forte tendência de redução do percentual de investimentos públicos no orçamento e contínua elevação nas despesas com o serviço da dívida, com previdência social e transferências para entes subnacionais. O governo tem perdido sua capacidade de garantir a oferta de infra-estrutura física ao país em decorrência da esterilização de parte significativa dos impostos na forma de pagamento de juros, com o engessamento crítico do orçamento e conseqüente incapacidade de viabilizar um planejamento minimamente sério.
No entender de Oliveira, a estrutura de gastos públicos no Brasil provoca enormes distorções e perpetua desigualdades sociais profundamente cristalizadas, “reforçando o perfil altamente regressivo do sistema tributário” (2009: p. 157). Nesse padrão, a maior parte dos recursos (60%) é destinada à cobertura da previdência social, distribuindo-se o restante em saúde (11,6%), assistência social (5,6%), educação e cultura (4,4%) e programas de proteção ao trabalhador (3,8%). Outras áreas como organização agrária, habitação e saneamento absorvem ainda menos, ficando com as sobras. A distorção do sistema reside no fato de que as aposentadorias tendem a favorecer a parcela da população de renda mais elevada e com maior escolaridade e nível de emprego, pressionando os gastos previdenciários no tempo.
Embora alardeada como grande inovação do atual governo, a assistência social recebe acanhados recursos orçamentários, cabendo ao Programa Bolsa Família apenas R$ 10 bilhões numa arrecadação que chega a R$ 1 trilhão, ou seja, apenas 1% do total! Ao tratar de diversos exemplos de como o orçamento brasileiro direciona poucos recursos para áreas cruciais da vida nacional – educação, saúde, cultura, habitação, saneamento e organização agrária – o autor reforça a necessidade de se ampliar o debate acerca da determinação das escolhas orçamentárias, especialmente visando reduzir a pobreza e as desigualdades sociais.
Enrique Carlos Natalino