domingo, 1 de fevereiro de 2015

UMA DOMINGO PARA NÃO SE ESQUECER

 
 
 
 
Renan Calheiros (PMDB-AL) foi reeleito nesse domingo para a presidência do Senado Federal, com o apoio explícito do PT e do Palácio do Planalto. Disputa entre o candidato ungido pelo Executivo e o seu contendor, de uma ala independente do PMDB, foi a mais apertada desde que o PT chegou ao poder. A votação do Senador Luiz Henrique, merecedor de 31 votos dos senadores, mostra uma oposição cada vez mais forte e que não comunga com a interferência deslavada do Planalto nos assuntos do Congresso. Graças ao apoio dos presidentes Lula e Dilma, grupo de Sarney e Renan, majoritário no PMDB, notório pela defesa dos interesses oligárquicos e dos mais atrasados costumes políticos, mantém o controle da Câmara Alta. Na vitória de Renan, constam as impressões digitais da atual mandatária e de seu antecessor.
 
 
Na outra Casa do Congresso, no entanto, a presidente Dilma Rousseff não teve a mesma sorte. Após intensas negociações, discursos e articulações, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sagrou-se presidente da Câmara dos Deputados, com 267 votos de seus pares. O candidato da oposição, Júlio Delgado (PSB-MG), contabilizou 100 votos, ficando em terceiro lugar, na frente de Chico Alencar (PSOL-RJ)), com 8 votos. Arlindo Chinaglia, do PT, apoiado por Dilma Rousseff, teve uma votação abaixo do mínimo esperado pelo Governo (136 votos). Com a rebelião dos partidos da "base aliada", liderada pelo PMDB, o Palácio do Planalto sofre a sua maior derrota no Congresso Nacional desde... 2005!
 
 
A eleição do outsider Eduardo Cunha, fortalecido com a intervenção desastrada do Palácio do Planalto na disputa, agrava o cisma entre PT e PMDB e sinaliza o descolamento do maior partido da base aliada, dos interesses hegemônicos do Partido dos Trabalhadores. A partir de hoje, com Cunha na cadeira que já foi ocupada por Ulysses Guimarães, Luís Eduardo Magalhães, Michel Temer, Aécio Neves, João Paulo Cunha e até por Severino Cavalcante, a vida do Governo do outro lado da Praça dos Três Poderes ficará cada vez menos risonha.  
 
 
O Planalto terá que curvar-se ao diálogo com o Congresso, ingrediente praticamente ausente nas relações do Executivo com o Legislativo. Ademais, terá que administrar uma Câmara Baixa menos dócil, com uma bancada de oposição pelo menos 40% mais numerosa, comandada por um aliado, no mínimo, incômodo. A derrota dessa noite torna ainda difícil o intento do PT de impor ao país a sua pauta autoritária, com itens como o controle social dos órgãos midiáticos.
 
 
O trinfo de Eduardo Cunha, para uns a versão brasileira de Francis Underwood, da série de ficção House of Cards, pode ter vários significados. Entrecortado por um cenário econômico mais adverso e por um ambiente político marcado pelo escândalo da Petrobrás, a vitória do peemedebista pode colocar no caminho da presidente Dilma Rousseff uma série de pautas bombásticas. Sem a maioria esmagadora do governo passado, a gestão da política no segundo governo da presidente parece caminhar para dias cada vez mais difíceis, o que não representa um desafio para um coração pródigo em valentia.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Oscar para Dilma Rousseff

 
 
Constrangedor para os amigos eleitores do PT ou que deixaram de votar no PSDB porque o acusaram de querer provocar um arrocho no país assistir, nesses primeiros trinta dias do ano de 2015, o governo Dilma II entregar o avesso de tudo o que prometeu na propaganda eleitoral. Concebida pelo marqueteiro Joao Santana, o mais competente dos bruxos na arte de mentir com eficiência na televisão, sua propaganda política de reeleição mereceria um Oscar, o de Melhores Efeitos Especiais....
 
 
Vimos ali uma administração inchada e desastrosa, um escândalo de corrupção de proporções ciclópicas e uma herança econômica maldita serem escondidos de todos os brasileiros. Em seu lugar, tal como uma ilusão cinematográfica, surge um país de mentiras, ficção e manipulações, transformando em inimigos da Nação todos os que ousam divergir e discordar do oficialismo governamental. Adversários foram sistematicamente descontruídos com base na má-fé, na calúnia e no uso constante da máquina pública federal para chantagear os beneficiários de programas governamentais.
 
 
Da parte da Oposição, a derrota não a deixou menor. Mesmo com todos os problemas, falhas, erros estratégicos e deslizes táticos, ela cravou dois feitos importantes: conseguiu mobilizar o país inteiro numa grande onda mudancista, e amealhou a maior votação para presidente desde 2002, ameaçando perigosamente a permanência do PT no poder.
 
 
Foi uma vitória de pirro a de Dilma.
 
 
Na semana seguinte ao pleito de outubro, fomos apresentados ao Brasil real, um país quebrado, no limite irresponsável da suspensão de gastos essenciais para o custeio de serviços públicos essenciais. Na iminência do rebaixamento da economia brasileira pela comunidade financeira internacional, a única saída foi trazer, a contragosto, sob o patrocínio do maquiavélico Lula, um economista-banqueiro para tentar consertar as combalidas finanças nacionais. Sem a menor justificativa ou explanação, o "coração valente" abandonou a falida "nova matriz macroeconômica" do ministro Guido Mantega (demitido em dezembro) e acabou se rendendo ao programa do adversário Aecio Neves, que nunca escondeu do Brasil a essência do que iria fazer: arrumar a casa antes que desmoronasse.
 
 
A presidente da República, acovardada, desapareceu completamente dos olhos da Nação. Não dá entrevistas desde que tomou posse, deixou de ir ao Fórum de Davos para render homenagens a Evo Morales e parece indiferente aos escândalos que permeiam a gestão da petroleira estatal, convertida em caixa 2 do PT. Eleita por uma coalização de partidos e interesses acostumados aos tempos de bonança, o que lhes resta é partilhar a escassez e uma herança desastrosa na gestão do Estado Nacional.
 
Estou impressionante como os meus amigos defensores de Dilma Rousseff, infligidos pela decepção do grande estelionato eleitoral do século, debandaram dos debates e praticamente sumiram das redes sociais.

Cavalo de pau na economia





Quem acredita numa presidente que promete uma coisa em eleição e faz outra no Governo? Hoje, Dilma Rousseff acabou por admitir que seu Governo teve que dar um cavalo de pau na economia, sob pena de ver sua presidência desmoronar sob os escombros de uma economia em estado crítico. Mas não reconheceu, em nenhum momento, que a causa da mudança de rumos foi o seu próprio governo. É lícito vencer uma eleição com base na mentira, na manipulação e no estelionato?
 
 
Dilma Rousseff jurou a milhões de brasileiros que o país estava às mil maravilhas: a economia estava em ordem, novos investimentos iriam chegar e os programas sociais iam bem, obrigado. Se a economia do Brasil estava em ordem, por que, na semana seguinte à vitória no segundo turno, fomos apresentados pelas autoridades a um cenário completamente adverso: maior déficit público dos últimos anos, somado com inflação em alta, rombo monstruoso nas contas externas, investimento definhando e pobreza crescente?
 
 
Ademais, ao invés de manter Guido Mantega ou alguém ligado a ele no cargo de Ministro da Fazenda, por que a presidente reeleita trouxe para o seu lugar um banqueiro que trabalhou no Bradesco, com formação da Universidade de Chicago, a Meca do "neoliberalismo"? Assim como Lula fez em 2003, ao trazer para o Banco Central Henrique Meirelles, um banqueiro ligado ao PSDB, Dilma tenta socorrer-se de um economista ortodoxo para tentar evitar que seu segundo governo acabe antes de terminar. Venceu o discurso populista, mas a cartilha da heterodoxia que levou aos desmandos nos setores financeiro, industrial e energético, mobilizando centenas de bilhões de reais em subsídios, deve ir para a lata do lixo.
 
 
Pratica-se hoje, a toque de canetadas do Poder Executivo, um dos mais drásticos arrochos fiscais da história do Brasil. E, se por um lado a alternativa ao ajuste nas contas públicas é o caos, por outro ele vai sendo realizado sem critério, transparência e negociação com o Congresso, punindo a produção e o trabalho. Já foram anunciados aumentos de impostos para a classe média, tarifaços, volta de contribuições, cortes em investimentos, diminuição nos benefícios sociais para aposentados e desmonte de importantes políticas de Estado, como a do Ministério das Relações Exteriores, um dos mais afetados pelos cortes.
 
 
No lado do gasto, nenhuma notícia sobre reduções no número de Ministérios e de cargos comissionados, imensos canais de desperdícios de dinheiro público. Ao contrário, seu governo promove verdadeira farra com o dinheiro público na Esplanada dos Ministérios, trazendo para o poder um time sem preparo para lidar com os crescentes problemas brasileiros e com os nossos maiores desafios. A educação, por exemplo, elencada como a prioridade das prioridades em seu discurso de posse, foi contemplada com um ministro sem intimidade nenhuma com a pasta e com os maiores cortes no orçamento federal.
 
 
A perspectiva de crescimento da economia brasileira em 2015 pode ser negativa, preveem a maioria das consultorias especializadas no assunto. Compreende-se hoje que a empulhação, o falseamento da verdade e a fabricação de ilusões foram as únicas maneiras de vender, aos milhões de eleitores que votaram no PT, a mentira do século.