Renan Calheiros (PMDB-AL) foi reeleito nesse domingo para a presidência do Senado Federal, com o apoio explícito do PT e do Palácio do Planalto. Disputa entre o candidato ungido pelo Executivo e o seu contendor, de uma ala independente do PMDB, foi a mais apertada desde que o PT chegou ao poder. A votação do Senador Luiz Henrique, merecedor de 31 votos dos senadores, mostra uma oposição cada vez mais forte e que não comunga com a interferência deslavada do Planalto nos assuntos do Congresso. Graças ao apoio dos presidentes Lula e Dilma, grupo de Sarney e Renan, majoritário no PMDB, notório pela defesa dos interesses oligárquicos e dos mais atrasados costumes políticos, mantém o controle da Câmara Alta. Na vitória de Renan, constam as impressões digitais da atual mandatária e de seu antecessor.
Na outra Casa do Congresso, no entanto, a presidente Dilma Rousseff não teve a mesma sorte. Após intensas negociações, discursos e articulações, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sagrou-se presidente da Câmara dos Deputados, com 267 votos de seus pares. O candidato da oposição, Júlio Delgado (PSB-MG), contabilizou 100 votos, ficando em terceiro lugar, na frente de Chico Alencar (PSOL-RJ)), com 8 votos. Arlindo Chinaglia, do PT, apoiado por Dilma Rousseff, teve uma votação abaixo do mínimo esperado pelo Governo (136 votos). Com a rebelião dos partidos da "base aliada", liderada pelo PMDB, o Palácio do Planalto sofre a sua maior derrota no Congresso Nacional desde... 2005!
A eleição do outsider Eduardo Cunha, fortalecido com a intervenção desastrada do Palácio do Planalto na disputa, agrava o cisma entre PT e PMDB e sinaliza o descolamento do maior partido da base aliada, dos interesses hegemônicos do Partido dos Trabalhadores. A partir de hoje, com Cunha na cadeira que já foi ocupada por Ulysses Guimarães, Luís Eduardo Magalhães, Michel Temer, Aécio Neves, João Paulo Cunha e até por Severino Cavalcante, a vida do Governo do outro lado da Praça dos Três Poderes ficará cada vez menos risonha.
O Planalto terá que curvar-se ao diálogo com o Congresso, ingrediente praticamente ausente nas relações do Executivo com o Legislativo. Ademais, terá que administrar uma Câmara Baixa menos dócil, com uma bancada de oposição pelo menos 40% mais numerosa, comandada por um aliado, no mínimo, incômodo. A derrota dessa noite torna ainda difícil o intento do PT de impor ao país a sua pauta autoritária, com itens como o controle social dos órgãos midiáticos.
O trinfo de Eduardo Cunha, para uns a versão brasileira de Francis Underwood, da série de ficção House of Cards, pode ter vários significados. Entrecortado por um cenário econômico mais adverso e por um ambiente político marcado pelo escândalo da Petrobrás, a vitória do peemedebista pode colocar no caminho da presidente Dilma Rousseff uma série de pautas bombásticas. Sem a maioria esmagadora do governo passado, a gestão da política no segundo governo da presidente parece caminhar para dias cada vez mais difíceis, o que não representa um desafio para um coração pródigo em valentia.

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