A cidade de Ubá, na Zona da Mata, famosa pelas suas mangas e por ser o berço do compositor de "Aquarela do Brasil", é um dos mais interessantes estudos de caso da indústria latino-americana. Entre o começo do século XIX e meados do século XX, a região atravessou diversos ciclos econômicos, passando da cafeicultura à produção de fumo, milho e gado. A mistura de descendentes de antigos mineradores com imigrantes libaneses e italianos nas terras do sudeste de Minas Gerais fixou na região uma mão-de-obra abundante e diversificada, marca da sua colonização inicial.
No começo da década de 1960, a crise na produção do fumo e a falência de uma grande empresa de móveis geraram desemprego e abriram uma janela de oportunidade para reconversão econômica e o nascimento de pequenos empreendimentos de fabricação de móveis em fundos de quintal. Com o trabalho dessas famílias de pequenos marceneiros e a aplicação de novos recursos tecnológicos, a indústria de móveis ubaense expandiu-se ano após ano, numa trajetória de crescente reforço da credibilidade de suas empresas e da qualidade dos seus produtos.
Desse histórico impressionante de superação e reconstrução, nasceu um dos mais importantes complexos moveleiros do país, com cerca de 350 empresas, responsáveis pela geração de 10 mil empregos diretos e de 20 mil indiretos (dados da FIEMG), além de uma considerável parcela do PIB industrial da Zona da Mata. Hoje, o polo moveleiro de Ubá impulsiona a economia da cidade e de todo o seu entorno, espraiando-se ainda pelos municípios de Guidoval, Guiricema, Piraúba, Rio Pompa, Rodeiro, São Geraldo, Tocantins e Visconde do Rio Branco.
Localizada a 290 km de Belo Horizonte e em posição estratégica em relação a outros mercados consumidores do país, com acesso rodoviário, ferroviário e aéreo, Ubá realiza, desde 1994, uma das maiores feiras de móveis da América Latina, a FEMUR. Com a inauguração do Pavilhão de Exposições, em 2000, inspirado no EXPOMINAS, Ubá tornou-se uma das poucas cidades de Minas Gerais e do Brasil com a capacidade de realizar grandes eventos do gênero. A criação, em 2002, do Fórum de Desenvolvimento do Polo Moveleiro de Ubá, do Senso Moveleiro (2003), do Plano de Marketing (2004) e do programa de incentivo às exportações, o Arranjo Produtivo Local (APL) deu um salto.
O amplo diagnóstico de potencialidades, entraves, proposições e ações para a alavancagem do setor moveleiro municiou o setor público municipal e estadual com informações, planejamento estratégico um conjunto de diretrizes para a consolidação da capacidade de produção. Na última década, houve uma melhoria considerável na integração dos empresários, na prospecção de novos mercados e na cooperação do setor produtivo com o setor público e paraestatal. Ademais, o contínuo investimento dos empresários e trabalhadores em tecnologia, qualificação, treinamento e governança melhorou as condições de competitividade dos móveis da região, hoje a terceira maior produtora do Brasil.
Tanto da parte dos empresários quanto dos trabalhadores, nasce uma preocupação cada vez maior com a necessidade de fortalecer, inclusive politicamente, esse bem sucedido arranjo produtivo local moveleiro diante dos desafios internos e externos que se apresentam, especialmente o estrangulamento da infraestrutura regional, o aumento dos custos, a concorrência chinesa e os incentivos fiscais de outros Estados. Cumpre apostar na melhoria da competitividade, da especialização, da infraestrutura, da logística de escoamento da produção, do design e inovação, da gestão empresarial sustentável, da cultura exportadora e da busca de novos mercados. Ubá aponta, com seus móveis cada vez mais sofisticados, os caminhos para o futuro da economia da Zona da Mata Mineira.
Enrique Carlos Natalino
Enrique Carlos Natalino
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