A antropologia social é um empreendimento arriscado: tentar analisar o passado de forma objetiva a fim de buscar as interconexões culturais e étnicas que levaram à formação de uma sociedade contemporânea, sem com isso infringir os padrões culturais correntes é o desafio posto aos intelectuais.
O historiador e cientista social paulista Sérgio Buarque de Hollanda foi um dos homens que aceitou este desafio. Em seu livro, Visões do Paraíso, Hollanda tenta depurar a imagem da terra ignota que até então representava a América Portuguesa. Explora os seus mitos; a visão que ora revela uma terra da abundância divina ora uma terra amaldiçoada. Aos elementos do europeu lusitano e do ameríndio nato, somar-se-ia mais tarde a do escravo negro africano e a do imigrante europeu não-lusitano, mas é essa primeira visão, esse primeiro choque e composição de civilizações, que Hollanda analisa. Hollanda toma do poeta paulista Ribeiro Couto a expressão “homem cordial” como metáfora para explicar o brasileiro; contudo, modifica o significado original de uma idéia de docilidade, de cortesia diante do estrangeiro, de tratamento igual ao outro como se este fosse um amigo ou familiar.
Em Hollanda, o termo concentra-se no radical de “cordial”, ou seja, “coração”. O homem brasileiro age sempre de acordo com o seu coração no sentido de agir consoante a emoção; todavia, a emoção nem sempre pende para um sentimento amistoso, bondoso e, em última análise, passivo. Sob a insígnia da emoção o comportamento é imprevisível, irracional tomando, às vezes, uma forma violenta e belicosa. O brasileiro, sob esta perspectiva comportar-se-ia em relação ao outro com proximidade conforme a medida da emoção. Àqueles que lhe são próximos e queridos dar-se-ia tudo, aos outros, distantes e desconhecidos, nada.
Desta forma as construções iluministas da isonomia, da divisão entre o privado e o público, da igualdade de penas, entre outras, encontrariam grandes óbices axiológicos entre os brasileiros. É exatamente este o sentido e a contribuição da análise de Hollanda sobre o mito do homem cordial. Por inúmeras razões atribuí-se ao pensador paulista o fato de cunhar o brasileiro como sendo um ser passivo, caridoso e pueril. Hollanda, muito pelo contrário, via-o como violento, irracional; e esta atitude, mesmo quando tomada de forma mais dócil, era passível de reprovação, pois era um comportamento retrógrado que nos impedia de recepcionar de forma eficaz certos valores construídos ao longo da era moderna.
Assim, o conceito de homem cordial expande-se a ponto de modificar-se, como na idéia do círculo hermenêutico de Hans Gadamer, onde o conceito ao ser interpretado expande o seu próprio horizonte conceitual.
O coração brasileiro pulsa e ao pulsar comanda os sentidos que o fazem perceber o mundo. O mundo visto do coração é imprevisível, caótico, virulento e passional. Entretanto, a urbanidade e o tempo nos trouxeram outros valores de outras culturas que para cá imigraram formando a miríade cultural nacional. Lançamo-nos, então, a uma civilização peculiar que nós é própria. A construção de uma identidade coletiva nem sempre é caridosa e virtuosa; não temamos o nosso passado, estudemo-lo a fim de que possamos caminhar cônscios de quem somos. Esta é grande lição de Hollanda: a diástole da identidade brasileira está sempre em formação.
Luís Fernando de Paiva Baracho Cardoso
O historiador e cientista social paulista Sérgio Buarque de Hollanda foi um dos homens que aceitou este desafio. Em seu livro, Visões do Paraíso, Hollanda tenta depurar a imagem da terra ignota que até então representava a América Portuguesa. Explora os seus mitos; a visão que ora revela uma terra da abundância divina ora uma terra amaldiçoada. Aos elementos do europeu lusitano e do ameríndio nato, somar-se-ia mais tarde a do escravo negro africano e a do imigrante europeu não-lusitano, mas é essa primeira visão, esse primeiro choque e composição de civilizações, que Hollanda analisa. Hollanda toma do poeta paulista Ribeiro Couto a expressão “homem cordial” como metáfora para explicar o brasileiro; contudo, modifica o significado original de uma idéia de docilidade, de cortesia diante do estrangeiro, de tratamento igual ao outro como se este fosse um amigo ou familiar.
Em Hollanda, o termo concentra-se no radical de “cordial”, ou seja, “coração”. O homem brasileiro age sempre de acordo com o seu coração no sentido de agir consoante a emoção; todavia, a emoção nem sempre pende para um sentimento amistoso, bondoso e, em última análise, passivo. Sob a insígnia da emoção o comportamento é imprevisível, irracional tomando, às vezes, uma forma violenta e belicosa. O brasileiro, sob esta perspectiva comportar-se-ia em relação ao outro com proximidade conforme a medida da emoção. Àqueles que lhe são próximos e queridos dar-se-ia tudo, aos outros, distantes e desconhecidos, nada.
Desta forma as construções iluministas da isonomia, da divisão entre o privado e o público, da igualdade de penas, entre outras, encontrariam grandes óbices axiológicos entre os brasileiros. É exatamente este o sentido e a contribuição da análise de Hollanda sobre o mito do homem cordial. Por inúmeras razões atribuí-se ao pensador paulista o fato de cunhar o brasileiro como sendo um ser passivo, caridoso e pueril. Hollanda, muito pelo contrário, via-o como violento, irracional; e esta atitude, mesmo quando tomada de forma mais dócil, era passível de reprovação, pois era um comportamento retrógrado que nos impedia de recepcionar de forma eficaz certos valores construídos ao longo da era moderna.
Assim, o conceito de homem cordial expande-se a ponto de modificar-se, como na idéia do círculo hermenêutico de Hans Gadamer, onde o conceito ao ser interpretado expande o seu próprio horizonte conceitual.
O coração brasileiro pulsa e ao pulsar comanda os sentidos que o fazem perceber o mundo. O mundo visto do coração é imprevisível, caótico, virulento e passional. Entretanto, a urbanidade e o tempo nos trouxeram outros valores de outras culturas que para cá imigraram formando a miríade cultural nacional. Lançamo-nos, então, a uma civilização peculiar que nós é própria. A construção de uma identidade coletiva nem sempre é caridosa e virtuosa; não temamos o nosso passado, estudemo-lo a fim de que possamos caminhar cônscios de quem somos. Esta é grande lição de Hollanda: a diástole da identidade brasileira está sempre em formação.
Luís Fernando de Paiva Baracho Cardoso
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