Os países emergentes sempre chegaram atrasados no desenvolvimento das principais fontes de energia da moderna sociedade industrial. Contudo, diante das crescentes pressões geopolíticas e econômicas que apontam para um novo choque do petróleo e da necessária revisão da matriz energética mundial nas próximas décadas por imperativos ambientais, dessa vez o Brasil está na dianteira.
É hoje um dos maiores produtores de combustíveis renováveis, eficientes e de baixo impacto ecológico. Tem um potencial hidrelétrico a ser ampliado que consegue suprir quase todas as necessidades de energia elétrica. Alcançou a auto-suficiência em petróleo e estima-se que possua uma reserva de bilhões de barris em sua plataforma continental. Seu imenso litoral viabiliza grandes investimentos em energia eólica e o clima tropical permite a exploração da energia solar. Por essas razões, tem potencial para credenciar-se como um futuro supridor global de energia.
O álcool da cana-de-açúcar foi introduzido como combustível de automóveis no Brasil como uma resposta governamental à primeira crise do petróleo. Supre 40% das necessidades de petróleo e move metade da frota nacional de veículos. Mais de 85% dos carros hoje vendidos no país têm tecnologia flexi-fuel. O plantio da cana-de-açúcar ocupa 10% das terras aráveis e 1% da massa territorial brasileira.
A cultura gera ainda 1 milhão de empregos diretos, 6 milhões de empregos indiretos e beneficia diretamente 224 mil famílias de baixa renda. Aumenta as exportações, a renda e combate eficazmente a pobreza, ao mesmo tempo em que mitiga as emissões de gases de efeito estufa pelo aumento da cobertura vegetal em largas extensões de terras degradadas. Calcula-se que entre 1970 e 2005 o Brasil tenha deixado de despejar na atmosfera mais de 644 milhões de toneladas de gás carbônico com a substituição de parte de sua demanda de petróleo por álcool.
A eficiência agroenergética brasileira se reflete em números animadores. Enquanto nos Estados Unidos se produz 3,5 mil litros de etanol por hectare de milho, no Brasil se produz 6 mil litros por hectare de cana-de-açúcar. Em 2005 a produção de álcool no Brasil alcançou 16 bilhões de litros, o consumo interno 14 bilhões e as exportações 2 bilhões. Previsões do governo apontam que em 2030 o país estará apto a produzir 66,6 bilhões de litros, consumir 54,7 bilhões e exportar 12 bilhões.
Se conseguir implantar e dominar a tecnologia do etanol celulósico - que aproveita o bagaço da cana-de-açúcar hoje desperdiçado no pátio das usinas – o Brasil multiplicará sua produção interna de energia oriunda da biomassa. Calcula-se em US$ 17 bilhões os investimentos recentes feitos em produção, armazenagem, transporte e comercialização de etanol. Com relação ao potencial petrolífero provavelmente existente na camada pré-sal da plataforma continental, este só será extraído em larga escala após cinco anos de pesquisas e investimentos.
O soft power energético do Brasil ganha dimensões notáveis no xadrez global. A instabilidade geopolítica no Oriente Médio, a demanda dos países emergentes e os crescentes custos de extração do petróleo fizeram o produto bater na casa dos US$ 150,00 o barril, um fato que certamente provocará impacto inflacionário em economias já abaladas pela crise de confiança nos mercados financeiros e pela alta no preço de commodities e alimentos.
Ao lado da incerteza quanto à estabilidade do suprimento regular de petróleo e quanto à volatilidade dos preços, mudanças climáticas sem precedentes e desastres naturais provocados pela emissão desenfreada de gases na atmosfera criaram o cenário de uma verdadeira hecatombe econômica, ambiental e energética. Não é por outra razão que os países industrializados prestam cada vez mais atenção na experiência brasileira. Lula fez do tema um dos eixos estruturantes de sua política externa no segundo mandato e trabalha na evangelização urbi et orbi do etanol como combustível do futuro. Controlando 46% do mercado mundial de etanol, o Brasil assinou importantes acordos de cooperação energética com Estados Unidos e União Européia.
Há certamente uma experiência a compartilhar e inúmeros desafios a alcançar para tornar-se uma potência energética. Falta garantir o marco regulatório estável, livre concorrência, padrões de qualidade e segurança, melhorar as deficiências em infra-estrutura e logística, aumentar parcerias com o setor privado, construir dutos, renovar a frota de navios e criar uma cadeia produtiva estável para o biodíesel. Sem ufanismo e ingenuidade, o Brasil precisa definir rápida e claramente essas metas como prioridades de seu desenvolvimento econômico, passo fundamental para não perder mais uma vez o trem da História.
Enrique Carlos Natalino