quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A essência da política e do poder


 
 
Estamos em mais um ano eleitoral e o país começa a contagem regressiva para a escolha do próximo Presidente da República, de Governadores, Senadores e Deputados Estaduais e Federais no Brasil. Partidos e candidatos se revezam nos programas políticos na televisão e nas viagens por regiões e cidades em busca do apoio e do voto dos cidadãos. Estes, por sua vez, vivenciam, em maior ou menor grau, o difícil exercício de avaliar e escolher seus governantes e representantes para o próximo período de quatro anos, inventariando feitos e analisando expectativas. Além dos candidatos, dos partidos e das instituições, a própria atividade política também passa a ser avaliada.
 
 
A valorização da política, conjugada com o fortalecimento da participação social, base de um Estado Democrático de Direito, é fundamental para a melhoria da governança em nossa sociedade. A despeito dos importantes avanços institucionais verificados desde no Brasil desde a redemocratização,  o enfraquecimento dos partidos, a forte dependência entre poder político e poder econômico e a deterioração dos costumes produzidos pelo sistema político criaram fortes barreiras à oxigenação de lideranças e à atração das melhores inteligências do país para a arena pública.
 
 
No sistema republicano, presidencialista e federal brasileiro, a distância entre o país ideal e o país real é bastante grande. De difícil compreensão para a maioria dos brasileiros, o nosso sistema político mostra sua crescente esclerose e quase falência diante dos grandes desafios que se apresentam a uma nação continental, com mais de 200 milhões de habitantes, com uma das maiores economias mundiais e com uma sociedade cada vez mais heterogênea e complexa, tornando-se, pelas suas falhas, inconsistências e vícios, vitualmente incapaz de garantir uma combinação razoável de governabilidade, de representatividade e de probidade.
 
 
A crise na representação, por outro lado, abre a oportunidade para a mudança. De quando em quando, o país exige uma renovação de lideranças e a escolha de novos caminhos, o que se faz, segundo a lição dos mais sábios, combinando o frescor da juventude com a experiência da maturidade. Em seu livro "Cartas a um Jovem Político", de 2007, um exercício inédito de aconselhamento sobre a atividade política, em tom direto e coloquial, Fernando Henrique Cardoso  afirma que não há ação política sem coragem para enfrentar resistências, talento para ouvir opiniões distintas, visão de futuro e capacidade de tomar decisões firmes.
 
 
Na lição de Cardoso, num cenário que combina, de um lado, normalidade institucional e democrática, e de outro, crescente desconfiança e indiferença da sociedade  em relação ao mundo político, precisar refletir cada vez mais sobre os limites, possibilidades e desafios da vida pública. Como ensina o sociólogo alemão Max Weber em sua obra “Política como Vocação”, a atividade política requer o equilíbrio das convicções com as circunstâncias políticas do momento, segundo a ética da responsabilidade. E, se por um lado a política envolve um "viver perigosamente", por outro os riscos inerentes ao seu exercício devem ser administrados com a aquisição de mais conhecimentos e a ponderação das opiniões alheias, tornando os homens públicos capazes de ampliar a compreensão da realidade e tomar decisões mais acertadas.
 
 
O exercício do jogo do poder, em sua essência, não mudou muito ao longo de séculos e séculos de história humana, pois a própria natureza humana permanece a mesma. Num outro diapasão, com a ascensão das sociedades de massa, a abertura das fronteiras nacionais à globalização, a reformulação dos papéis dos Estados nacionais, o surgimento de demandas e agendas sociais cada vez mais especializadas e a emergência das novas tecnologias de comunicação e informação, o modo com que exercemos e vivenciamos o controle do poder nas modernas democracias passa por um período de transformação sem precedentes. Entender essas transformações, compreender o seu significado e possibilitar a maximização do controle sobre os nossos destinos são desafios que se apresentam aos homens públicos da nessa era, especialmente em anos de escolhas críticas como esse que vivenciamos. 
 
 
 
Enrique Carlos Natalino
  
Bacharel em Direito no Largo de São Francisco (Universidade de São Paulo)
Mestre em Administração Pública na Escola de Governo da Fundação João Pinheiro
Professor da Faculdade de Ciências Econômicas e Gerenciais da PUC Minas
 
 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Eleições de 2014: um voo cego?




Nesse momento pós-tragédia da morte do candidato a presidente Eduardo Campos, há muito achismo e palpites no ar. Tal qual numa Copa do Mundo, todo mundo quer ser técnico e fazer análises. Pelas entrevistas e artigos de acadêmicos e politólogos que temos lido, ainda há muita inconsistência nesse momento. Sobram especulações e há muitas incógnitas, pois não sabemos, por exemplo, como a futura candidata Marina Silva vai se comportar a partir desse momento. Se ela for candidata pelo PSB, pretende desistir da criação do seu partido, a Rede Solidariedade? Terá apoio da cúpula e das bases partidárias do PSB e aliados? Vai manter os acordos e palanques costurados por Eduardo? Vai mudar sua postura radical perante temas sensíveis ao agronegócio e aos setores empresariais? Perguntas que aguardam respostas.

Vejamos como ficarão as próximas pesquisas presidenciais com um maior distanciamento da tragédia que vitimou um dos concorrentes e o início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Dilma Rousseff permanece a favorita e tem a seu favor, além do maior tempo de televisão, o apoio de Lula e o controle da máquina partidária federal. Por outro lado, reparem que Aécio Neves não perdeu nenhum ponto na nova pesquisa Datafolha. Como o candidato mais desconhecido, por não ter disputado eleições nacionais, tem maior espaço de crescimento. Seus palanques estaduais prometem reforçar sua campanha e ele ainda pode ainda herdar alguns votos que se destinariam a Eduardo Campos, sobretudo no Centro-Sul.

Estamos ainda no terreno da especulação. A maior certeza é a de que teremos uma das eleições mais disputadas e imprevisíveis da fase pós-redemocratização do país. A ver como o quadro evolui.