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Em seu livro “Cartas
a um Jovem Político – Para Construir um País Melhor” (Editora Dom Quixote,
2010), o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso dirige
algumas palavras aos jovens a respeito da atividade política, valendo-se da
própria experiência como professor, militante partidário, senador, ministro,
presidente da República e cidadão do mundo. Distanciando-se da pretensão de
escrever um manual teórico, a intenção de FHC nessas “Cartas”, escritas em linguagem direta e quase coloquial, é abrir
diálogo franco com a juventude e com a sociedade, focalizando a finalidade da
política, a arte de agregar pessoas, o exercício do poder, a administração da
popularidade, a convivência com a opinião pública, o papel das alianças, a
avaliação dos governos, as cobranças e o papel do tempo.
De acordo com FHC, da mesma forma
como a guerra não pode ser assunto exclusivo de generais, a política é
importante demais para ser deixada apenas nas mãos de políticos profissionais,
sob pena de distanciar-se do restante da sociedade. Num país em que a atividade
política e a qualidade dos políticos sofreu um forte aviltamento nas últimas
décadas, afastando bons quadros da atividade partidária e da arena de debates, essas
reflexões ajudam a iluminar os caminhos e as escolhas de uma nova geração de
brasileiros que inicia a vida pública. Enquanto grande parte dos jovens que
militavam na vida estudantil durante o regime militar teve os seus direitos
políticos cassados, juntamente com políticos com carreiras já consolidadas (o
que impediu uma saudável renovação geracional de quadros nos partidos
brasileiros), a juventude de hoje não precisa mais se preocupar com a Espada de
Dâmocles da ditadura, mas com uma outra ameaça, talvez ainda pior, pois mais
difusa e complexa.
A natureza da
política e a arte de agregar pessoas
O enfraquecimento dos partidos e a deterioração dos
costumes produzidos pelo sistema político do Brasil criaram fortes barreiras à
atração das melhores inteligências do país para a arena pública. De difícil
compreensão para a maioria dos brasileiros, o nosso sistema político é incapaz
de garantir uma combinação de governabilidade, representatividade e probidade. Num
cenário que combina, de um lado, normalidade institucional e democrática, e de
outro, crescente desconfiança e indiferença da sociedade brasileira em relação
ao mundo político, as reflexões de um ex-presidente com décadas de vida pública
e intelectual são de grande valor.
Na primeira parte, Fernando Henrique Cardoso afirma que
não há ação política sem alguns elementos: coragem para enfrentar resistências,
talento para ouvir opiniões distintas, visão de futuro e capacidade de tomar
decisões firmes, evitando a precipitação e a protelação. Para ilustrar, recorde-se a trajetória política de Abraham Lincon,
recentemente interpretado no cinema pelo excepcional Daniel Day-Lewis, antecipou-se
à sua época, enxergou longe e encerrou, ao custo de uma guerra civil e de
concessões que se sobrepunham aos seus próprios escrúpulos, o longo ciclo
escravocrata em seu país.
Coragem e decisão são atributos que permitem ao político
manter a palavra dada, corrigir erros, enfrentar derrotas e administrar
vitórias. Como ensina o sociólogo Max Weber em sua obra “Política como Vocação”, a atividade política requer o equilíbrio
das convicções com as circunstâncias políticas do momento, segundo a ética da
responsabilidade. E, se por um lado a política envolve um viver perigosamente,
por outro os riscos inerentes ao seu exercício devem ser administrados com a
aquisição de mais conhecimentos e a ponderação das opiniões alheias, nos
tornando capazes de ampliar a compreensão da realidade, tomar decisões mais
acertadas e maximizar o controle sobre o nosso destinos.
A escolha da política como vocação, para utilizarmos a
expressão de Weber, pressupõe, ademais, a capacidade de convencimento, de inspiração
e de obtenção de adesão das pessoas aos nossos pontos de vista. Para ter
sucesso, o político eficaz precisa dar o seu recado de forma objetiva e direta,
fiel à sua maneira de ser, falando com o povo, de modo a influir na maneira de
pensar da coletividade e atingir o seu alvo. Além disso, como o ex-presidente
reforça, a par da busca de conhecimentos pessoais e de competências técnicas, um
importante atributo a ser cultivado é o talento para reunir pessoas de talento,
formando e motivando equipes que trabalhem com eficiência e harmonia, compatibilizando
competências e incentivando o crescimento desse conjunto.
A política é a antítese das hierarquias rígidas e
inflexíveis. A capacidade de traduzir a vontade popular em representação autêntica
se traduz na habilidade de relativizar a hierarquia, viabilizando uma relação
mais equilibrada e igualitária entre as pessoas. Dessa forma, Cardoso pontua
que o político moderno precisa ter autoconfiança suficiente para deixar que os
seus subordinados cresçam, sem medo de suas virtudes e do seu potencial de
crescimento. Essa autoconfiança se traduz ainda na capacidade de dialogar,
lidar com pessoas com diferentes modos de pensar, forjar alianças estratégicas e
negociar bem.
E a negociação, em política, não significa necessariamente
barganha, a cessão de uma coisa para a obtenção de outra. O bom negociador é
aquele que consegue buscar o máximo possível, cedendo em alguns pontos na
defesa dos seus interesses. Ao liderar o processo de transição do regime
militar para a democracia, no começo dos anos 80, Tancredo Neves, notável
negociador, sabia que era preciso abrir um canal de diálogo com as forças dissidentes
do governo e forjar um novo pacto para enterrar o ciclo autoritário, já que as
oposições, embora energizadas pelas ruas, não tinham forças suficientes para
fazê-lo sozinha.
O exercício do
poder e a popularidade
Em sua análise, Fernando Henrique Cardoso mostra que o
Brasil se tornou um país mais complexo, dinâmico e urbano nas últimas décadas,
agregando à sua diversidade geográfica uma inédita convivência com uma
democracia de massas. Sob a ótica política, nos vinte e cinco anos de vigência
da Constituição da Nova República, os modelos de organização dos partidos se
tornaram mais frouxos e flexíveis, abrindo novos canais de participação social
e franqueando maior espaço para a interação entre Estado e sociedade. Na
sociedade de hoje, marcada pela diluição das fronteiras entre o ambiente
internacional e o cenário doméstico e a presença marcante das novas tecnologias
de comunicação, atuar politicamente, na esfera do Executivo ou do Legislativo,
não se restringe a controlar uma burocracia e dar ordens ou proferir discursos
vazios, mas inovar e confrontar paradigmas estabelecidos, buscando apoio na
cidadania, em sua história, sentimentos e valores.
Na base da construção do agir
político, pondera Fernando Henrique, encontra-se a credibilidade, que se
adquire e se mantém com respeito, coragem, rumo, direção e competência. Em suas
palavras, “é preciso fazer o que deve ser
feito e o que deve ser feito nem sempre é popular”. Dessa forma, ao se
abrirem as janelas de oportunidade, é preciso colocar a sensibilidade, a
experiência e a intuição a serviço de uma meta a ser perseguida, seja política,
econômica ou social. Para recorrer à história, a atitude do ex-presidente de
desvalorizar a moeda, em 1999, embora fosse impopular, impôs-se como necessária
para evitar o colapso financeiro do país, afetado por inúmeros choques externos
decorrentes das crises no México, Tigres Asiáticos e Rússia.
Dentre outros conselhos gerais, o
ex-presidente afirma que saber ouvir com prudência, colocar as pessoas no lugar
certo e valorizar a contribuição que cada um pode dar, extraindo o melhor de
cada indivíduo, são atitudes centrais para o desenvolvimento da capacidade do
político de entender cada pessoa como é, combinando, segundo o pensamento de
Isaiah Berlin, o juízo racional com os sentimentos, a emoção e a intuição. Na
mesma linha, a capacidade de ser solidário nas diversas situações, assumindo
posições corajosas, com veemência e senso de conciliação, ajuda a desenhar uma
carreira política promissora.
E, do mesmo modo como uma pessoa necessita de oxigênio para
viver, é preciso afastar-se do risco de iludir-se com o clima artificial,
irreal e fugaz gerado pela presença do poder. Para manter-se lúcido, o político necessita evitar ser tragado pelo
olho do furacão dos acontecimentos e afastar-se da teia em torno do qual vive, mantendo uma linha de contato real com o mundo,
lançando mão do diálogo com pessoas de confiança, próximas, capazes de manter conversas sem cálculos, disfarces ou constrangimentos inibidores da consulta
sincera e da troca desarmada de opiniões. Conforme ensina o ex-presidente, quem
tem medo de desagradar, perde a credibilidade e a confiança, tornando-se
incapaz de tomar decisões autônomas, que contrariem interesses, vontades e
sentimentos da maioria. Na sua visão, “um
bom político não é quem vai atrás, mas quem abre um caminho novo”,
exercendo a liderança de modo a equilibrar popularidade, apoios e decisões
corretas.
O papel das
alianças, as cobranças e o papel do tempo
Pela sua longa experiência, Fernando
Henrique afirma que, em eleições, a população concentra suas preocupações no
porvir, isto é, nas ideias sobre o melhor programa que traga melhorias nas
condições de vida, na condução da economia e na oferta de bons empregos. O
papel do político, nesse diapasão, é angariar apoios, forjar alianças e superar
divergências circunstanciais e momentâneas para defender os propósitos a serem
atingidos. Nessa linha, a convergência se baseia em argumentos de ordem moral,
formando uma corrente para avançar para a posição desejada.
Fernando Henrique afirma que, em
matéria de política, não há um absoluto: é preciso mensurar as escolhas para
melhorar constantemente o desempenho. É preciso que o político desempenhe bem o
seu papel e que os outros desejem que ele suba para se galgar postos mais
elevados na hierarquia do Executivo e do Legislativo. Na linha de Ulysses
Guimarães, saber administrar o tempo é tarefa essencial do bom político, já que
“o tempo não perdoa quem não sabe
trabalhar com ele”. Em meio ao embaralhamento de projetos, é preciso
sintonia com as exigências do tempo, já que a política se explica melhor como
processo, não como ato.
Ao contrário do que gostaríamos que ocorresse, numa
democracia não se pode coagir, mas influenciar e ser influenciado. Para o
ex-presidente, as atitudes políticas presentes acabam desencadeando mecanismos
que irão influenciar a ação futura, influenciando no resultado final.
Diferentemente do ideólogo, cuja ação se interrompe no sonho, o político busca
a “reafirmação retórica do real”, na
qual o mundo não será salvo pelos sermões, mas influenciado através do
pensamento e da ação.
“Cartas a um Jovem
Político – Para Construir um País Melhor”, de Fernando Henrique Cardoso, o
estadista que legou aos seus sucessores um país mais respeitado, economicamente
mais sólido e institucionalmente mais estruturado, é leitura obrigatória para
todos os que iniciam a se interessar pela política num momento em que essa
atividade nunca esteve tão desacreditada. As manifestações de 2013 no Brasil,
com milhões de pessoas nas ruas, mostraram que a população quer mudanças na
governança política. A explosão de participação social que todos vimos, se por
um lado mostra o déficit do sistema político sobre o qual se assentam as três
décadas de nossa democracia, por outro, abre uma grande janela de oportunidade
para revertermos esse quadro. Junho de 2013 mostrou que há uma demanda por mudança na sociedade: quem for capaz de capitalizá-la e direcioná-la para apoiar um projeto democrático, reformista e inclusivo, poderá apontar uma solução. É preciso sonhar com os pés no chão. Como conclui FHC: “sonhe
que será possível, mas não se perca no sonho”.
Enrique Carlos Natalino
Bacharel em Direito no Largo de São Francisco (Universidade de São Paulo)
Mestre em Administração Pública - Escola de Governo da Fundação João Pinheiro