1. De Bolívar a Chávez
Antes
de morrer, deprimido e decepcionado no exílio, o Libertadorprofetizou,
no leito derradeiro, que a Venezuela seria um eterno quartel. Firmado no
imaginário popular e na identidade nacional, o mito do salvacionismo
militar fez com que o quartel venezuelano fosse sucessivamente governado
por generais e coronéis de famílias com forte tradição rural (Monaga,
Blanco, Crespo, Castro, Vicente Gómez, López Contreras, Medina Angarita e
Pérez Jiménez).
O
general Gómez, por exemplo, inaugurou um sistema de governo em que
quase todos os ministros, congressistas e funcionários públicos eram
pertencentes à família do Chefe de Estado, mais tarde importado pelo rei
Abdul Aziz ibnSaud, fundador da Arábia Saudita. Morreu em 1935, depois
de governar durante 27 anos, deixando uma herança de inchaço da máquina
estatal, corrupção e clientelismo arraigados.
Derrubado
o condomínio dos generais, em 1958, a Venezuela conheceu certo fôlego
democrático, subordinando os quartéis à autoridade civil e com uma
democracia representativa, partidos políticos competitivos e eleições
periódicas. Viveu uma época de modernização e prosperidade, com um
capitalismo misto que encheu os cofres do Estado com as rendas de
exportação do petróleo.
Ao
elevar os preços do seu principal produto de exportação, a crise
mundial do petróleo de 1973-74 inundou rapidamente o país de
petrodólares, o que trouxe implicações importantes. Ao não utilizar as
receitas fiscais extraordinárias para o fortalecimento e diversificação
da economia, a Venezuela viveu um rápido boom de consumo,
importações, projetos megalômanos e desperdícios, arrastando-se em
direção ao endividamento e ao colapso financeiro nos anos 1980, quando
os preços do petróleo voltaram a cair. A capital, Caracas tornou-se uma
das cidades mais caras do mundo e um dos lugares de mais alto consumo per capita de uísque escocês.
Na
década seguinte o sistema petroleiro chegou aos seus limites, revelando
a insustentabilidade de um Estado inchado e de uma burocracia
ineficiente. Terry S. Karl, autora de “The ParadoxofPlenty: Oil Booms andPetro-State”,
mostra que o fator chave para a compreensão da deterioração econômica,
política e social da Venezuela foi a Maldição dos Recursos Naturais, um
processo mediante o qual o crescimento exponencial do setor primário
deprime os demais, levando ao estancamento geral da economia, à explosão
da dívida externa, à inflação e ao desemprego.
Assumindo
esta herança perversa, o governo de Carlos Andrés Pérez (1989-1993) não
logrou êxito em seu plano reformista e, depois de um conturbado
governo, ameaçado até por agitações dos quartéis, foi destituído pelo
Congresso. Rafael Caldera (1994-1999), seu sucessor, tentou sem chances
eliminar as causas da crise, o que redundou num fracasso que comprometeu
a credibilidade das instituições, dos partidos e dos políticos.
O
alto índice de abstenção nas eleições presidenciais de 1998 (36,6%) –
aquelas que ungiram Chávez ao poder pela via eleitoral, com 56% dos
votos – abriu grande espaço para sua dominação personalista. Com efeito,
Chávez convocou Assembleia Nacional Constituinte no ano seguinte, na
qual se abstiveram impressionantes 53,8% dos eleitores.
2. O caudilho bolivariano no poder
Os
chavistas aprovaram um documento sob medida a suas ambições de poder,
com alto grau de presidencialismo e desmonte da autonomia das instâncias
públicas, fundamentais nas pólis modernas, como a magistratura, os
governos locais, as universidades e os meios de comunicação. Todos
neutralizados e expropriados em sua capacidade técnica, convertendo o
Estado venezuelano em uma monolítica estrutura de mando centralizado
vertical.
No referendum
de aprovação da Constituição Bolivariana, 55,5% dos eleitores se
abstiveram. Confortável no poder, mas nem tanto, Chávez conduziu a
Venezuela a uma longa viagem rumo ao passado. Sua política econômica
aprofundou o modelo de dependência petrolífera, com traços
anticapitalistas nas políticas distributivistas de suas
“misionessociales”, paralelas aos sistemas público de saúde e educação,
levando-os ao sucateamento.
A
Venezuela atravessou nova espiral de conflitos provocados pelo
afastamento de setores da classe média, de empresários e trabalhadores
dos rumos tomados pelo governo. Trocas de acusações entre Chávez e a
Igreja, a estatal PDVSA, os meios de comunicação e as oposições levaram a
situação política a inflamar-se perigosamente em abril de 2002, com um
golpe militar fracassado, o “Carmonazo”, que chegou a apear o presidente
do poder por 48 horas. Entre 2002 e 2003, greve de fome dos
trabalhadores da PDVSA paralisou a extração de petróleo por semanas.
Chávez respondeu demitindo sumariamente 18.000 gerentes e técnicos da
estatal, aproveitando para continuar a purgação de focos de oposição em
toda a administração pública, provocando enorme diáspora de cérebros.
O
Referendo Revocatório de 2004 (abstenção de 33,4%) foi a oportunidade
perdida para os venezuelanos abreviarem democraticamente o mandato de
Chávez. A eleição de uma maioria chavista de 100% na Assembléia
Nacional, resultado do boicote dos partidos de oposição às eleições
congressuais, mostra a farsa de um Legislativo de fancaria. Sua
reeleição em 2006 para um novo mandato presidencial de seis anos lança o
país na incerteza quanto ao futuro. As “LeisAutorizantes” de 2007 e
2010, em que o Congresso abre mão de seus poderes, constituiu um
verdadeiro atestado de indenidade.
Malgrado
os imensos poderes marciais, apoios políticos e recursos concentrados
em suas mãos, o regime de Hugo Chávez não conseguiu reestruturar,
diversificar e desvencilhar a economia venezuelana da chamada “Maldição
dos Recursos Naturais”, deixando-se levar pela tentação de aumentar os
gastos públicos com objetivos populistas.
E, contrariando as lições do passado, a Venezuela de Chávez vinculou
ainda mais a economia ao dirigismo estatal, ao protecionismo, à
distribuição clientelística de recursos fiscais e ao aprofundamento da
dependência em relação a sua principal riqueza, com resultados
desastrosos: redução dos investimentos públicos e privados, deterioração
da infraestrutura, queda na produtividade dos principais setores,
desindustrialização, congelamento de preços, nacionalizações, encampação
de empresas privadas, desabastecimento, aumento da inflação e
crescimento oscilante.
3. Petróleo e autoritarismo
As
escolhas das políticas econômicas produzem implicações no mundo
político, ajudando a explicar por que a Venezuela vem vivenciando
constantes períodos de instabilidade e crises. A era Chávez (1998-2010)
também tem sido marcada por retrocessos político-institucionais
notáveis, com a militarização do Estado e da sociedade, o
enfraquecimento do Legislativo e do Judiciário, a centralização do poder
nas mãos do Executivo, a perda de autonomia dos órgãos de controle, o
solapamento da Federação, o reforço clientelístico do aparelho do
Estado, o esmagamento das oposições, a criação de milícias paraestatais à
sombra do partido oficial, a censura aos meios de comunicação e outras
restrições aos direitos e liberdades fundamentais.
O
cenário da gestão pública não é menos desolador, com o enfraquecimento
da capacidade estatal e a politização da administração, favorecendo o
clientelismo, a corrupção e a ineficiência. Enquanto as Forças Armadas
recebem fartos recursos para sua ampliação e reaparelhamento, por ser o
principal sustentáculo do governo Chávez, áreas como energia,
transportes e segurança vêm sendo negligenciadas pelo setor público,
resultando em crescentes perdas para a competitividade da economia
venezuelana e para o bem-estar dos cidadãos. A deterioração das forças
de segurança pela falta de investimentos é apontada como uma das causas
do aumento da criminalidade nas ruas das principais cidades da
Venezuela.
É
possível comparar os amplos poderes concentrados na presidência da
Venezuela com a força do Poder Executivo central da Hungria nas reformas
do pós-socialismo. Ao invés de produzir racionalização e coerência, a
discricionariedade estatal sob a égide do governo Hugo Chávez resulta em
inconstância econômica, instabilidade política e insegurança jurídica,
erodindo as bases do desenvolvimento do país.
O
gasto social venezuelano aumentou consideravelmente na década de 2000,
graças às receitas fiscais extraordinárias oriundas do aumento da
cotação dos preços do petróleo. Isso permitiu o direcionamento de
recursos de investimentos da empresa estatal PDVSA para o combate à
pobreza em bairros pobres, as chamadas misionessociales
– inspiradas no modelo cubano. Mas essas despesas são financeiramente
insustentáveis no longo prazo e se atrelam diretamente aos objetivos
clientelísticos, personalistas e autoritários do governo Chávez,
favorecendo regiões onde se concentram seus aliados políticos.
A
política externa venezuelana, por sua vez, se vincula à diplomacia
personalista do presidente Chávez e de sua Revolução Bolivariana, cuja
principal bandeira é a integração política e econômica dos povos
latino-americanos à revelia do sistema capitalista e dos Estados Unidos.
Para regozijo do regime chavista, os altos preços do petróleo entre
2003 e 2008 permitiram ao governo não apenas o disfarce de uma
estabilidade monetária, cambial e da inflação, mas também distribuir
vastos recursos do petróleo para projetos de cooperação com países como
Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, o cinturão ideológico da Alternativa
Bolivariana para as Américas (ALBA).
O
objetivo internacional de Chávez é lograr alcançar a hegemonia
sul-americana e reviver uma visão econômica baseada no estatismo,
noprotecionismo e na autarquia, segundo uma cosmovisão política
antiamericana, encorajada por uma presença terceiro-mundista em foros
internacionais aliada a regimes autoritários. Tal atitude vem afastando
novos investimentos diretos e comprometido a modernização econômica do
país, privando as empresas da indispensável concorrência e absorção de
novas tecnologias.
4. Os dilemas futuros
Em
suma, é possível esboçar uma análise da evolução das instituições
venezuelanas (políticas governamentais, estrutura do Estado, grupos
sociais, ideologia e inserção internacional) para explicar o declínio
econômico do país, malgrado a sua imensa riqueza petrolífera. O caso da
Venezuela é bastante revelador de como a instabilidade prejudica o
desenvolvimento econômico, comprometendo a confiança dos investidores
nacionais e estrangeiros nas regras do jogo e dos cidadãos em relação ao
governo.
Assim,
a Venezuela se apresenta como um país polarizado e fraturado, em que o
Estado está aparelhado em função de uma causa revolucionária e de uma
verdade totalitária. Chávez utiliza habilmente o carisma, a propaganda, a
retórica inflamada, a manipulação das instituições, das leis e dos
programas governamentais para fortalecer sua popularidade perante as
populações mais pobre e as forças armadas, sua base de apoio político.
A
excessiva centralização de decisões nas mãos do Executivo central, a
pregação ideológica revolucionária, o desmonte dos espaços de autonomia
estatal, a repressão política e a completa discricionariedade
presidencial no manejo das receitas fiscais têm provocado um déficit
de legitimação do Estado perante o conjunto da sociedade e aprofundado
as dificuldades do sistema político venezuelano em dar respostas às
sucessivas crises políticas e econômicas.
Na
minha visão, na atual conjuntura, o governo venezuelano atual condena
seu povo ao atraso e à ruína. Aumenta a escala de insegurança jurídica,
política e social, dissolvendo o prestígio de uma nação que era exemplo
de democracia, tão segura de sua estabilidade que rompeu relações com o
Brasil em 1964, em represália ao golpe militar. Exposta à galhofa nas
Nações Unidas, a Venezuela tem estado à mercê de um ser iluminado, e
seus asseclas, que se creem investidos do direito de ditar os destinos
nacionais, dando-nos a confirmação derradeira da visão do Libertador,
Simon Bolívar.
Torçamos
para que, nas próximas eleições, previstas para o final de 2012, os
venezuelanos consigam se livrar desse entrave ao seu desenvolvimento e
enfrentar a herança maldita que ele deixou.
ENRIQUE CARLOS NATALINO. Esperafelicense.
Graduado em Direito (USP) e Mestre em Administração Pública (Fundação
João Pinheiro). Professor universitário (PUC Minas) e Assessor de
Relações Internacionais da Governadoria do Estado de Minas Gerais. Esse texto foi publicado em 2011, no Portal Espera Feliz.