Na linha de Maquiavel, os advogados do realismo político sustentam que a política é a arte do possível, a habilidade de adaptar-se à mobilidade das circunstâncias e de agir com eficácia para alcançar os objetivos pretendidos. Por outro lado, a idéia de democracia pressupõe que o poder esteja submetido a regras e instituições que limitem a transação oportunista de interesses, mola propulsora, por excelência, do agir político. Nesse sentido, como balancear as vicissitudes do exercício do poder com a salvaguarda de alguma reserva ética?
As mudanças de posicionamentos, valores e opiniões dos homens públicos e dos partidos políticos são comuns na história brasileira. Alguns exemplos são muito ilustrativos e interessantes. No período regencial, os aguerridos liberais que lutaram por reformas para desconcentrar o poder político das mãos do governo central, converteram-se, alguns anos depois, em defensores do regresso ao status quo anterior. Face à ameaça de anarquia e fragmentação do país, o idealismo cedeu ao pragmatismo. Uma das figuras centrais desse período, o Marquês de Olinda, dizia que em política não havia princípio justo ou injusto, sendo a transação era a única lei moral. Talvez em virtude desse senso realista, com os ânimos conciliados e o país pacificado, o revezamento dos partidos no poder no Segundo Reinado tenha diluído as diferenças ideológicas entre os programas partidários a quase nada.
Os homens mudam conforme as circunstâncias. O mesmo pragmatismo que norteou o exercício das atividades governativas na monarquia parlamentar foi transposto para a nascente república presidencialista. Passados os seus primeiros e turbulentos anos, o novo regime soube atrair para os seus quadros personalidades de peso da fase final da monarquia: os políticos que iniciaram suas carreiras à sombra do Trono e que acabaram servindo à República não foram poucos.
Os dois principais políticos brasileiros contemporâneos absorveram esses exemplos. Se as circunstâncias e os cenários mudam, argumentam, é preciso acompanhar essas mudanças e renovar o discurso. Fernando Henrique Cardoso, um dos presidentes da Nova República, poderia ter dito que numa democracia tudo é negociável, com exceção da própria democracia. Intelectual que no passado havia teorizado sobre a dependência econômica das nações, o ex-presidente entendeu que, como político, era preciso somar a militância acadêmica com uma dose de pragmatismo para modernizar a agenda do país num mundo globalizado.
O mesmo pragmatismo que norteou o intelectual Fernando Henrique Cardoso no poder ajudou o ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva a se eleger com uma plataforma mais moderada e centrista, após três derrotas sucessivas. Tomado pela necessidade de governar e ciente da impossibilidade de implementar as bandeiras anacrônicas de seu partido, Lula abriu negociações com antigos adversários, enquadrou os elementos mais radicais e deu prosseguimento às políticas do governo Fernando Henrique que seu partido combateu com tanta aspereza no passado.
O exercício da atividade política não se compatibiliza com a rigidez, a intransigência e a intolerância. A política exige a administração das diferenças, o contorno de obstáculos, o equilíbrio de suscetibilidades e a construção de consensos. Nesse sentido, a mudança dos homens pode ter inúmeras motivações. Todas elas convergem, no entanto, para uma espécie de senso de sobrevivência política. Mudar é legítimo. Mas o que se impõe, num mundo em que se debate a necessidade de mais transparência na vida pública, é que essas mudanças ocorram às claras, segundo as regras do jogo, sob pena da prevalência do simples oportunismo e de um detestável cinismo.
Enrique Carlos Natalino